Jornal Rio grande

Por que o nome Bolaxa?

  • Ique de la Rocha
  • 04/02/21 as 10:34

n/d

O Bolaxa recebeu suas primeiras habitações no final do século 19. Passou por um longo período estagnado mas, a partir do desenvolvimento do Cassino, passou a experimentar um crescimento considerável.

Até meados do século 20 a localidade limitava-se a algumas vivendas ou chácaras. Na entrada do corredor principal, junto à estrada, era comum ter movimento na estação do trem para levar o leite até a cidade. Na década de 70 as casas aglomeravam-se ao longo da estrada Cidade-Cassino. No interior da vila já havia algumas belas residências, como a do médico Paulino de Mello Dutra, que depois foi do historiador e agenciador marítimo Dídio Duhá, e a do engenheiro Sérgio Pernigotti. Uma estrada, que proporcionava um belo passeio, entrando pela Ponte Preta e passando pelo Arroio dos Macacos, tanto levava à 4ª Secção da Barra (na época não havia o superporto) como desembocava no Bolaxa.  

Ainda na década de 1970 viam-se casas um pouco distantes umas das outras. Naquele tempo, os mais jovens da sociedade divertiam-se no Castelinho, um casarão que acabou transformando-se em boate, antes de desaparecer. Os moradores eram amáveis e ainda havia chácaras que forneciam leite fresco a quem lá veraneava.

A origem do nome

Muita gente estranha o nome Bolaxa e, ainda mais, escrito com “x”. Existe mais de uma versão para o fato. O saudoso jornalista e pesquisador Daoiz de la Rocha conhecia duas. A primeira, reforçada por muitos moradores da localidade, é de que em toda aquela região as denominações eram dadas aos proprietários de grandes áreas, onde instalavam-se estações de trem. Na Vieira, seria por causa de dona Joaquina Vieira; Senandes era o nome de uma família e Bolaxa na realidade seria Bolaxo, também atribuída a um proprietário de terra. Teria passado para Bolaxa somente porque a estação (do trem) é feminina. 

O querido amigo Nilo Arthur Pinho, que foi comerciante e presidente da CDL, desde pequeno, e creio que até seu falecimento, costumava veranear naquela localidade. Ele ouvia falar nessa versão e ia mais além. Dizia que a pronúncia inicial era “bolacsá” ou “bolacsó”, pronunciando-se o “x” da mesma forma que na palavra “nexo”.

Daoiz de la Rocha também ouviu que o nome Bolaxa era porque os moradores e veranistas do Cassino costumavam se abastecer de bolachas muito bem feitas naquela localidade. E naquela época se escrevia bolacha com “x”.

Algumas recordações do “Bolaxo”

Quando fui editor do caderno “Agora Bairros”, o nosso saudoso tabelião, Cônsul de Portugal e veranista daquela localidade, Américo Alves das Neves, publicou um texto intitulado “Algumas recordações do Bolaxo”, onde dizia o seguinte:

“Tenho para mim que o Bolaxo (com ‘x’ e ‘o’ no fim) é um subdistrito do município do Rio Grande mais antigo que o Cassino, ambos pertencentes ao 2º Distrito, denominado ‘Mangueira’ e, posteriormente, pelo decreto nº 7.589, de 29 de novembro de 1938, alterado para distrito do Cassino.

No início do século o trem saía do Rio Grande e tinha como fim de linha o ‘Bolaxo’, onde veraneavam as famílias mais abonadas do Rio Grande. Ali Viviam os Pernigotti, Pinto, Dutra, Abel Asti, Aveline, Vidal, Torelly, Bolaxo, Martensen, Monteiro, Mello, D’Avila Pereira, Alvarez, Veloso, etc.  

A estação do Bolaxo, de madeira, ficava defronte á Panificadora Gaúcha (N.da R: atual padaria do Torrada), na frente da casa dos Veloso. Ao chegarem na estação, os passageiros se deslocavam para suas residências de verão a pé, em carruagens ou cavalos e poucos se destinavam ao Cassino. Ali o trem dava uma ré, até a leitaria do Bolaxa, onde carregava charque e leite para depois retornar a Rio Grande, passando pelas estações Senandes, Vieira, Junção, Central e Marítima (estas duas últimas na cidade).

Uma mulher meio índia era a chefe da estação, uniformizada com túnica e quepe, como militar. Vendia passagens e batia o sino, dando partida ao trem. Na parte de trás havia um mictório muito sujo e na parede um verso:

Isto não é mictório nem nada.

Isto é uma coisa indecente.

A gente não mija nele.

ele é que mija na gente.

Sabe quem escreveu esses versos? Ninguém menos que o poeta e humorista rio-grandino Apparício Fernando Brinkerhoff Torelly, o Aporelly ou Barão de Itararé, que mais tarde se tornou jornalista nacionalmente conhecido. Ele trabalhou no jornal ‘O Globo’, depois ‘A manhã’ e mais tarde fundou o seu próprio jornal ‘A manha’, onde parodiava e criticava o governo da época.

O Armazém Gaúcho é um dos prédios mais antigos do Bolaxo sendo, inicialmente, o armazém da família D’Avila Pereira e, mais tarde, de Jorge Ferreira dos Santos e Manoel Domingues de Mello. Atualmente a panificadora é de João Torrada.

O Corredor do Bolaxo, lado esquerdo no sentido Rio Grande-Cassino, terminava na curva a 300 metros da faixa. A partir dali ficavam as residências dos Pernigotti e Dutra. Para se chegar na fazenda dos Torelly, a três quilômetros da faixa, era necessário entrar pelo corredor da Vieira.

A ponte do arroio Bolaxo era muito bonita, em arcos, lembrando a ponte do Retiro, na saída de Pelotas para Porto Alegre.

O Bolaxo cresceu, passou a ser chamado de Bolaxa, contando com cerca de três mil moradores. O local é tranquilo e ótimo para morar ou veranear”.