Jornal Rio grande

Aparício Torelly, o filho ilustre do Bolaxa

  • Ique de la Rocha
  • 09/02/21 as 10:33

Considerado um dos maiores humoristas brasileiros, Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971), também jornalista e escritor, passou sua infância na localidade do Bolaxa, em nosso município. Há controvérsias com relação ao local de seu nascimento. Uns dizem que foi na cidade, outros que no interior do município, durante uma viagem de Jaguarão para cá (teria vindo pela estrada de Santa Izabel, que desemboca na rodovia Quinta-Chuí, sem precisar passar por Pelotas). Conforme o Wikipedia, ”o nascimento de Apporelly é marcado por mistérios e disputas. Conta-se que teria nascido a bordo de uma diligência, no Uruguai, enquanto seus pais rumavam para uma fazenda da família materna. Admiradores do município de Rio Grande (Rio Grande do Sul), onde seus pais moravam, contestam esta versão. Entretanto, na matrícula de ensino escolar, Apporelly foi registrado como nascido no Uruguai, enquanto seu título de eleitor sustentava uma naturalidade gaúcha, mas sem discriminação de cidade”.

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A Manha

Apporelly, como também assinava seus escritos, iniciou sua carreira jornalística em Porto Alegre. Mais tarde transferiu-se para o Rio de Janeiro. Em 1925 entrou para “O Globo”. Com a morte do fundador Irineu Marinho, foi convidado, no mesmo ano, por Mário Rodrigues (pai do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues) para ser colaborador do jornal “A Manhã”. Estreou na primeira página com seus sonetos de humor, que geralmente tinham um tema político da época. Foi sucesso e em 1926 começou a escrever sua coluna “A Manhã tem mais...”, também na primeira página.

Neste mesmo ano criou o semanário que viria a se tornar o maior e mais popular jornal de humor da história do Brasil. Bem ao seu estilo de paródias, o novo jornal da capital federal tinha o nome de A Manha, e usava a mesma tipologia do jornal em que Apparício trabalhava, sem o til, fazendo toda diferença, que era reforçada com a frase ladeando o título: "Quem não chora, não mama".

“A Manha” trazia críticas humoradas aos governos da época. O jornal saía às quintas-feiras. “Às vezes às sextas, pois uma grande folha não fica subordinada às folhinhas”, justificava. E não tinha expediente, porque “um jornal sério não vive de expediente”. o Barão ridicularizava ricos, classe média e pobres. Não perdoava ninguém, sobretudo políticos, donos de jornal e intelectuais. É considerado pioneiro no humorismo político brasileiro.

Por causa de suas críticas ao governo, seguidamente o jornal era invadido e “empastelado” (a composição tipográfica era desarrumada ou jogada no chão pelos invasores).  

 

Barão de Itararé

Do Wikipedia:

Durante a Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas partiu de trem rumo à capital federal, então o Rio de Janeiro, propagou-se pela imprensa que haveria uma batalha sangrenta em Itararé. Isto foi vastamente divulgado na imprensa. Apporelly não ficou de fora desta tendência. Esta batalha ocorreria entre as tropas fiéis a Washington Luís e as da Aliança Liberal que, sob o comando de Getúlio Vargas, vinham do Rio Grande do Sul em direção ao Rio de Janeiro para tomar o poder. A cidade de Itararé fica na divisa de São Paulo com o Paraná, mas antes que houvesse a batalha "mais sangrenta da América do Sul", fizeram acordos. Uma junta governativa assumia o poder no Rio de Janeiro e não aconteceu nenhum conflito. O Barão de Itararé comentaria este fato mais tarde da seguinte maneira:

“Fizeram acordos. O Bergamini pulou em cima da Prefeitura do Rio. Outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos. Outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando... e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve.

Na verdade, em outubro de 1930, Apparício se autodeclarara Duque nas páginas de A manhã:

“O Brasil é muito grande para tão poucos duques. Nós temos o quê por aqui? O Duque Amorim, que é o duque dançarino, que dança muito bem, mas não briga, e o Duque de Caxias, que briga muito bem, mas não dança. E agora eu, que brigo e danço conforme a música.

Mas, como ele próprio anunciara semanas depois, “como prova de modéstia passei a Barão”.

Em 1934, fundou o Jornal do Povo. Nos dez dias em que durou, o jornal publicou em fascículos a história de João Cândido, um dos marinheiros da Revolta da Chibata, de 1910. Em represália, o barão foi sequestrado e espancado por oficiais da Marinha, até hoje, nunca identificados. Depois desse episódio, voltou à redação do jornal e colocou uma placa na porta onde se lia: "Entre sem bater", mantendo o seu espírito humorístico.

O jornal A Manha circulou até fins de 1935, quando o Barão foi preso por ligações com o Partido Comunista Brasileiro, então clandestino. Foi libertado em dezembro de 1936, já ostentando a volumosa barba que cultivaria por boa parte de sua vida. Retomou o jornal por um curto período, até que viesse nova interrupção, ao longo de todo o Estado Novo e voltando em edições espasmódicas até 1959.

Na política

Comunista, Apparício Torelly lançou sua própria candidatura à deputado pelo Estado de...Sítio. Em 1947, foi candidato a vereador do então Distrito Federal, com o lema "Mais leite! Mais água! Mas menos água no leite!", sendo eleito com 3669 votos, o oitavo mais votado do PCB, que conquistou 18 das 50 cadeiras. Porém, em janeiro de 1948, seus vereadores foram cassados: "Um dia é da caça... os outros da cassação", anunciou A Manha.

No final dos anos 1950, foi deixando o humor de lado e passou a se interessar pela ciência, e pelo esoterismo. Estudou filosofia hermética, as pirâmides do Antigo Egito e a astrologia, campo no qual desenvolveu o "horóscopo biônico". Faleceu, dormindo, em seu apartamento no bairro carioca de Laranjeiras no dia 27 de novembro de 1971.

Foi opositor ferrenho de Getúlio Vargas, a quem conheceu nos tempos de colégio, em Porto Alegre, quando vivia na mesma pensão em que se hospedava Benjamin, irmão de Getúlio.

Inesquecível

Apparício Torelly, o Barão de Itararé, até hoje é lembrado pelo seu talento e humor ímpar. Em 1985, a Editora Record publica em livro, sob o título de Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, uma seleção de textos de humor extraídos de A Manhã, em coletânea organizada por Afonso Félix de Sousa e com prefácio de Jorge Amado. No mesmo ano, Máximas e Mínimas alcançou rapidamente quatro edições.

Em 14 de agosto de 2011, o programa De lá pra cá, da TV Brasil relembrou a vida e a obra do Barão de Itararé.

Mais recentemente, seu espírito crítico influenciou a criação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa "Barão de Itararé", que reúne diversos ativistas e movimentos sociais comprometidos com a democratização da mídia no Brasil.

Em 2014, o segundo episódio da série "Resistir é Preciso", exibida pela TV Brasil, teve como assunto a trajetória de Barão de Itararé.

 

Frases do Barão de Itararé

- Uma chácara pode progredir até chegar ao estado de sítio.

- Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

- Anistia é um ato pelo qual os governos resolvem perdoar generosamente as injustiças e os crimes que eles mesmos cometem.   

- Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer.

- Os calos podem ser produzidos por sapatos de qualquer cor.

- De onde menos se espera daí é que não sai nada.

- O fígado faz muito mal à bebida.

- Se é verdade que onde come um comem dois, mais é verdade que, onde comem dois, um pode comer duas vezes.

- Por enquanto devemos contentar-nos em aceitar, até segunda ordem, a classificação clássica dos heróis, que os divide em duas ordens: a dos heróis que a Pátria chora porque morreram e a dos heróis que a Pátria chora porque não morreram.

- O uísque é uma cachaça metida à besta.

- O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.

- A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer.

- Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.

- Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.

- A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

- Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.

- Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.

- Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas.

- O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.

- Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.

- Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.

- Quem empresta, adeus.

- Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

- O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.

- Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.

- A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

- Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

- Precisa-se de uma boa datilógrafa. Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa.

- O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.

- A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis.

- Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo…

- Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.

- Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!

- Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma!

- Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta…

- Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.

- As duas cobras que estão no anel do médico significam que o médico cobra duas vezes, isto é, se cura, cobra, e se mata, cobra.

- O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

- Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único.

- Quem não muda de caminho é trem.

- A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.

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