Jornal Rio grande

Rio Grande chegou a ter três carnavais ao mesmo tempo. Temos tudo para fazer grandes espetáculos.

  • Ique de la Rocha
  • 14/02/21 as 12:07

Aproveitando o período do carnaval sem carnaval, costuma vir à tona muitas recordações dessa grande festa popular. Enquanto a maioria dos meus conhecidos preferia os bailes de salão (inesquecíveis, como o do Ipiranga Atlético Clube, o melhor de todos, que trouxe até a famosa banda do Canecão do Rio de Janeiro, Clube do Comércio, Caixeiral, Saca-Rolhas, Grêmio Luzitano, Associação dos Empregados no Comércio, Cruzeiro do Sul, Ipiranguinha, Caveirinha, União Fabril, Ferroviários, Águia Branca e SAC) eu preferia o carnaval de rua.

Lembro vagamente do carnaval no final dos anos 60, que era na General Bacellar, tendo como ponto principal a frente da famosa confeitaria Sol de Ouro, com muito confete, serpentina e as bisnagas que acompanhavam a gurizada para molhar os outros. Não peguei o lança-perfume, que na minha época já estava proibido. Ainda tinha o banho à fantasia, realizado pelo Clube de Regatas Rio Grande, à tarde, no cais do Porto Velho, frente ao edifício da Câmara de Comércio.

Nos anos 70 o carnaval firmou-se na Marechal Floriano e a partir dali foi que acompanhei com mais intensidade os desfiles. Aliás, eu era daqueles que antes já assistia aos ensaios das escolas e virei torcedor das Mariquitas por ter a melhor bateria da cidade, puxada pela famosa velha-guarda. Tinha o destaque Suruba e a melhor Ala das Baianas, realmente muito bonita. A escola rivalizava com o Império Serrano, que era quase imbatível com o luxo que apresentava. O inesquecível Joel Barbosa conhecia muito de carnaval, junto com seu irmão Hélio Barbosa. Além do luxo era a escola que ousava com travestis e mulheres semi-nuas. Quem não lembra do Beto Cabeleireiro frente à bateria ou da passista Elba, o Cid e outros destaques? Assim como acontecia com As Mariquitas e demais escolas, muita gente do bairro Getúlio Vargas, que conhecia tudo de samba e do carnaval, também participava do Império. Diga-se de passagem, o BGV é um bairro de uma riqueza cultural incrível.   

As Mariquitas e o Império Serrano também abrilhantavam o carnaval de Pelotas e não poucas vezes integrantes das duas entidades uniram-se às entidades pelotenses: o Império Serrano com a Estação Primeira do Areal e As Mariquitas com a General Telles. Tivemos da parte do Sindicato dos Estivadores as escolas Quem é do Mar não Enjoa e As Praianas, que tinham sua sede no BGV, da mesma forma que a não menos excelente Nega Teresa, mais recentemente a Unidos da D.Pedro II-Cuca, Dancing Days, Erva Santa, etc, etc... Escolas que também marcaram em nosso carnaval foram a Unidos da Rheingantz, ainda em atividade, a Unidos do Mé, esperamos que também em atividade, Almirante Tamandaré da Barra, Capivaras do Parque Marinha e Mocidade Independente da Vila da Quinta. Nosso carnaval ainda teve blocos como o Quebra-Osso, do Exército, e a Marilú, que no início dos anos 90 “segurou a barra”, quando passamos um tempo sem o carnaval oficial. Não podemos esquecer do Bafo da Onça, um grande bloco, com um “molho” todo especial na bateria e que tinha uma torcida fiel. Lamentavelmente, depois que passou para a categoria de escola de samba a coisa degringolou. Deveria ter permanecido como bloco e fazendo o carnaval popular que sempre o consagrou.  

A Banda da Feira também foi uma novidade e apresentava-se nas feiras livres da cidade. Tivemos personagens importantes como o Drácula, o Bloco da Cobra e o impagável e assustador gorila do Quebra-Osso, que ia ao encontro e também de encontro ao público. Uma exclusividade nossa eram os conjuntos vocais e acadêmicos, que apresentavam-se na abertura dos desfiles. Cabe destacar que no início deste século Rio Grande foi destaque em nível estadual, quando o nosso carnavalesco Gilmar Lopes conquistou vários títulos de fantasia de luxo em Porto Alegre, aonde também fez figurinos para a Imperadores do Samba.

O carnaval rio-grandino acontecia à tarde no bairro Cidade Nova, na rua Crstovão Colombo (por um tempo foi na Marechal Deodoro) e à noite o desfile oficial era na Marechal Floriano, mas as entidades também passavam na rua Silva Paes, em frente à rádio Rio-Grandina onde havia, da mesma forma, grande público e as confeitarias Guarany e Hollywood lotavam.

Na Marechal Floriano tinha as pessoas que iam de macacão, bermuda e camiseta para pular atrás das entidades, mas também era um acontecimento social e muitos iam com roupa de domingo. O palanque das autoridades recebia muitos convidados, o Hotel Charrua (hoje Atlântico) lotava de turistas e havia o bar e restaurante Dalila (na mesma esquina do famoso café, hoje loja Gaston), sem falar no bar do Nelson, no Internacional e na churrascaria da esquina da Duque com a Marechal (eles ficavam lado a lado). Frente à Prefeitura localizavam-se os vendedores ambulantes.

Certamente os tempos de hoje são mais violentos, mas com relação ao carnaval, havia violência naquela época. Muitos se escondiam atrás das máscaras para praticar suas vinganças e a esquina do Hotel Charrua foi local de muitas mortes, brigas e esfaqueamentos, embora boa parte do público que assistia os desfiles das calçadas fosse familiar. Alguns até levavam cadeiras de praia.

Nosso carnaval caiu nos anos 90, mas estava se reerguendo no início deste século com a construção do Centro de Eventos e o Sambódromo no recinto da Rede Ferroviária. O Sambódromo tinha instalações precárias, mas sua idealização foi um avanço. Tinha arquibancadas pagas e também espaço gratuito e certamente iria sendo aprimorado com o tempo e à medida em que o espetáculo também fosse qualificado. Foi uma bela iniciativa do Ramão Freitas e da comissão de carnaval que ele montou. Ali o Império Serrano chegou a fazer um desfile para tentar se reerguer, teve o retorno da Unidos da Rheingantz, disputas entre a Unidos do Mé, Cuca, a Unidos do Zaire que depois virou a Grande Rio. Surgiram a Capivaras, a Castello Branco e outras entidades.

Investimento do poder público e entidades organizadas

Na época do Sambódromo, Rio Grande era a única cidade no Rio Grande do Sul que tinha três carnavais: o do Sambódromo (oficial), o popular da Cidade Nova e o do Cassino. Esperamos que isso volte a acontecer, passada a pandemia. Claro que vai ser uma construção a médio e longo prazo, mas temos gente que entende do assunto para que isso aconteça. Não é sonho e pode contribuir para o incremento do turismo, pois sabemos que só o carnaval do Cassino já atrai visitantes.

Será preciso investimento do poder público, mas principalmente que as entidades carnavalescas se organizem. Não podem depender só da verba pública. Carnaval exige trabalho o ano inteiro, como a Unidos do Mé e outras faziam. Organização requer o cumprimento dos horários. O público não tem paciência para aturar atrasos nos desfiles, com longos e cansativos intervalos. Também não dá mais para se ter entidades que viram propriedade de uma família. Aí quando a família briga ninguém sai. Parece mentira, mas temos vários casos desses em nosso carnaval, o que explica o desaparecimento de algumas entidades.

Vamos torcer para que surjam lideranças como Joel Barbosa, Cid Silveira, José Luis Rodrigues, fundador da Rheingantz, e tantos outros. O carnaval depende da união nas comunidades. Havendo isso, certamente o comércio e os moradores participarão, se conseguirá espaço para montar uma quadra de samba e fazer eventos durante o ano. Faz muita falta uma liderança como Wilson Bresqui, que criou a Associação Rio-Grandina das Entidades Carnavalescas (Argec). Ele brigava pelas entidades com o poder público, mas também exigia delas para que tivéssemos bons espetáculos.  

Como várias situações que acontecem em nosso querido Rio Grande, temos potencial. Precisamos nos organizar e fazer a coisa certa, também no carnaval.