Jornal Rio grande

Carnaval dos carnavais

  • João José Reinbrecht Braga
  • 14/02/21 as 12:13

                Ei , você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí, pois quero curtir o carnaval e, como cachaça não é água não como muitos pensam, custa dinheiro.

               Para curtir, tenho que chegar lá, mas somente se a canoa não virar eu chego lá. Rema, rema ,remador, quero bem depressa o meu amor e se eu não que chegar até o sol raiar, ela bota outro em meu lugar.

               Ao chegar, encontrei mil palhaços no salão, o pierrô chorando pelo amor da colombina, no meio da multidão, onde muitos usavam máscaras negras. Outros não , porque foram consolar a jardineira que estava tão triste , pois a camélia caiu do galho , deu dois suspiros e  depois morreu.

               Não muito longe dali, existiam índios que não queriam demarcação de terras , queriam apenas apito e se não dessem , o pau iria comer.

               Salões cheios, fantasias sensacionais ou não, mas a festa era imensa e a espera , angustiante. Para onde se olhava, havia fantasias de bailarinas e ciganas para as meninas e índios e piratas, para meninos. Havia , ainda, a fantasia masculina de gala que era sapatos, meias e calças compridas pretas, camisa de manga longa branca e uma faixa vermelha amarrada à cintura.Em bailes comuns não eram exigidas fantasias, valia qualquer roupa, desde que aprovada pelas diretorias dos clubes.  Palhações e máscaras eram feitas em tecidos normalmente estampados ou floreados e, nas máscaras, furos nos olhos e na boca para o folião enxergar e beber. Escondiam o rosto de quem queria permanecer sem ser identificado, podendo assim, brincar com todos, que tentavam adivinhar quem era.

               Ao ritmo das marchinhas, algumas parcialmente citadas neste texto , eram dadas voltas no salão enquanto “choviam” confetes, caiam serpentinas e até eram usadas lança-perfumes,o que mais tarde, foi tema de uma música da Rita Lee. Usava-se também o termo “enfezar” para as brincadeiras, que consistia em dar voltas no salão, muitas vezes formando trenzinhos.

               Nas ruas desfilavam escolas de samba, blocos e grupos musicais. As escolas de samba, com samba enredo próprio, fantasias de luxo, carros alegóricos, ala das baianas e tudo mais, eram conduzidos no início do desfile , pelo Rei Momo, normalmente grande e gordo, acompanhado da Rainha do Carnaval e sua corte. Nos blocos, valia qualquer roupa, inclusive homens travestidos de mulher e mulheres travestidas de homem. Atrás do bloco , vinha a multidão, mascarados e mascaradas brincando e dançando no ritmo das baterias que entoavam músicas já conhecidas.

               Os grupos musicais desfilavam à tardinha , ou início da noite, ao ritmo de músicas calmas e com número reduzido de integrantes. Aí havia tocadores de cuícas, triângulos e frigideiras acompanhando os instrumentos até hoje conhecidos.

               Agora, um pequeno glossário:

Confetes: minúsculos discos de papel colorido que eram jogados em quantidade nos foliões;

Serpentinas: fitas de papel enroladas. Pegava-se em uma das pontas, arremessando o rolo que se desenrolava aos poucos.

Lança- perfumes: spray em vidro ou metal, que quando acionado, lançava perfumes. Mais tarde foi proibido.

               Assim era o nosso carnaval que nos deixou saudades, muitas saudades.

 

João José Reinbrecht Braga, o Prof. Maninho, é ocupante da Cadeira 34 da Academia Rio-Grandina de Letras