Jornal Rio grande

Comunidade pede fim do feminicídio e homenageia Simone Souza

  • Matheus Magalhães da Silva
  • 05/11/20 as 14:08

O crime que chocou a cidade está trazendo grande repercussão junto da comunidade. Mas para além de ser um crime normal, cotidiano, este caso é produto de uma violência estrutural, enraizada numa sociedade que tolera o machismo, o naturalizando até que este tipo de violência exploda e o tema do feminicídio e da violência contra a mulher exponha o terror cotidiano que as mulheres brasileiras vivem. A partir de um relatório produzido pelo Banco Mundial, os casos de feminicídio cresceram 22,2% entre março e abril deste ano no Brasil, em 12 estados incluindo o Rio Grande do Sul. O terrível fenômeno, que se caracteriza pelo assassinato motivado pela discriminação de gênero e decorrente de violência doméstica, soma casos em uma sociedade que ainda discute se ele sequer existe.

Porém, esta triste realidade não passa despercebida por aquelas que mais sofrem com isto. Simone Souza, 23, não pode e nem será esquecida. Para além de chafurdar nos detalhes terríveis do caso, este jornal deseja dar espaço à comunidade para falar sobre o que pode e deve ser feito. Não há maior homenagem para a memória de Simone do que seu caso trazer conscientização e luta contra este crime bárbaro que pode vitimar qualquer mulher seja uma desconhecida, seja um familiar, seja uma filha, seja uma mãe: enquanto não falarmos de feminicídio e violência contra a mulher, não se pode falar em segurança e liberdade para ninguém!

 

Manifestação marca a memória de Simone e revolta contra a violência

Para tal, as mulheres riograndinas e da zona Sul estão preparando uma série de ações para manter a memória de Simone viva e intensificar a luta contra o machismo e o feminicídio. Neste domingo (8), deve acontecer o manifesto ELAS por ELAS que clama pelo fim da violência contra a mulher seja física, verbal ou sexual. As passeatas devem ter início às 14:00 em duas cidades: Rio Grande, com saída a partir da Praça Xavier Ferreira e em Pelotas com saída a partir do Mercado Central. Em Rio Grande, as organizadoras do evento ressaltam que o uso de máscara é obrigatório e pedem que os participantes usem roupa de cima preta para simbolizar luto. Vai haver a disponibilidade de tinta para confecção de cartazes, mas é preferível trazer já pronto para a manifestação. Homens são permitidos, desde que o foco seja mantido na manifestação feminina como indica o nome dado ao manifesto.

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Kamila Silva da Cruz, 23, uma das organizadoras da manifestação, explica a motivação que a levou a pensar em uma forma de reunir a comunidade para homenagear Simone: “O ocorrido do dia 2 de novembro (segunda-feira) deixou muitas pessoas chocadas tanto na cidade de Rio Grande quanto região, pois sempre vemos por meio de telejornais notícias parecidas, mas nunca esperamos que aconteça tão próximo à gente”. Ela prossegue lembrando do caso acontecido em Santa Catarina no qual uma vítima de estupro foi humilhada pelo advogado de defesa e seu agressor saiu impune: “no dia 3 (terça-feira), fomos de novo surpreendidos com mais uma impunidade, o caso de Mariana Ferrer. Por esse motivo, resolvemos não nos calar mais!”. Ela conta que que pensou, junto de sua irmã Karolina Silva da Cruz e sua amiga Vânia Soares, em um pequeno protesto contra a violência e estupro. “Mas com tanta indignação, a manifestação está indo mais além, em todos os estados do país será feito um manifesto com pedido de justiça por todas as mulheres”.

Cruz destaca o roteiro da manifestação e pede para quem quiser participar que se manifeste pacificamente: “Após homenagens a Simone Souza e algumas apresentações de poemas e peças teatrais do Conexão Jovem, haverá uma passeata até a frente do cemitério de Rio Grande, fazendo um minuto de silêncio e com a retorno até a praça encerrando o evento”. Há, também, o pedido para que os participantes levem materiais e vistam luto: “pedimos para todos irem de preto e que levem toda forma de expressão pacífica que puderem (cartazes, fotos, faixas). Convidamos também os homens para que possam estar nessa caminhada conosco, pois essa luta não é apenas nossa”. Entretanto, a manifestação não será apenas um cortejo fúnebre: para além, Cruz deseja que a história de Simone seja o início de uma mudança e convida a todos para fazer parte deste movimento. “A passeata, além de um movimento feminista, é um pedido de socorro, uma expressão de insatisfação com as leis de proteção às mulheres no Brasil e um grito de justiça!”, encerra.