Jornal Rio grande

A maior democracia do mundo sabe votar?

  • Matheus Magalhães da Silva
  • 05/11/20 as 17:01

 

A maior democracia do mundo comporta a possibilidade de o mais votado não ser eleito. Nem todo voto têm o mesmo peso: os votos de estados mais pobres, sobretudo os de maior presença de trabalhadores e imigrantes que vêm do Sul global, têm menos importância do que os estados dominados por ricos latifundiários que herdam espólios da escravidão. Do lado de baixo da linha do Equador, cada voto vale o mesmo – mas não somos democráticos como a maior democracia do mundo lá no Norte. A eleição da maior democracia do mundo é feita até via correio e tem regras diferentes em cada estado, facilitando fraudes e permitindo que diversos cidadãos sejam restringidos de votar. Abaixo da linha do Equador, usamos urnas eletrônicas e temos o resultado no mesmo dia – mas as urnas eletrônicas e resultados rápidos e confiáveis são coisas de países atrasados: na maior democracia do mundo, as eleições são uma mixórdia afeita a toda sorte de fraudes, disputadas por dois partidos que parecem idênticos por defenderem os interesses dos ricos e poderosos igualmente, mas como acontece no Norte, é melhor que aqui. Aliás, a maior democracia do mundo escolhe mais rápido um presidente fantoche para outros países do que seu próprio presidente! Olhe bem para a consideração e carinho da maior democracia do mundo.

Na maior democracia do mundo, uma mãe em trabalho de parto pode morrer, assim como seu bebê, se ela não pode pagar ou seu plano não cobre uma cesárea. Abaixo da linha do Equador, o sistema de saúde universal e gratuíto permite que o obstetra tome a decisão conforme o que é melhor para a mãe e o bebê. Mas, isso é autoritarismo segundo os defensores e defensoras da maior democracia do mundo: se não há alguém lucrando, falta liberdade. Se há alguém morrendo por não poder pagar, a liberdade brilha e se pavoneia, viçosa, de suas virtudes liberais. Na maior democracia do mundo, doenças que não matam ninguém ao Sul do Equador fazem pessoas cometerem suicídio por não ter como pagar o tratamento. Que beleza é a democracia plena da maior democracia do mundo!

Na maior democracia do mundo, existem cidadãos de segunda classe. Pessoas são classificadas como ilegais e são colocadas em campos de concentração. "Crianças marrons" são separadas das mães. Mas a maior democracia do mundo diz: “estes são ilegais e querem destruir nosso país”. Vez em quando, a maior democracia do mundo é palco de igrejas negras ou sinagogas explodidas por fanáticos brancos de extrema-direita. Ops, extrema-direita não: cidadãos revoltados exigindo seus direitos. É porque lá quem é branco pode exigir seus direitos. Homens, principalmente. E esses direitos, muitas vezes, são o direito de exigir que os outros não tenham direitos. Vez em quando, a maior democracia do mundo tem tiroteios em escolas. Na verdade, toda semana. É que lá a cultura é do campeão, do vencedor a todo custo e quem é diferente, não consegue vencer sempre acaba por poder comprar um rifle e matar quem venceu e o machucava por não ser vencedor. Não é incrível como há sempre oportunidade na maior democracia do mundo?

Ao sul do Equador, trabalhadores teimam em ter direitos. Na maior democracia do mundo, até os partidos são de propriedade dos patrões dos patrões. Lá tem CEO, CFO, CTO..., mas o dono da empresa é um bilionário que aparece as vezes para comprar o voto de um senador. Aliás, a maior democracia do mundo adora bilionários e eles, sem cerimônia, se intrometem o tempo todo na política. Sindicatos são coisa de autoritários, bem ao gosto dos totalitários ao Sul do Equador. Na maior democracia do mundo, o trabalhador trabalha e o patrão ganha. Não é lindo como a democracia de verdade faz as coisas serem tão simples?

A maior democracia do mundo vive tentando levar a sua democracia para o mundo, mas o mundo teima em não querer. Deve ser pura inveja ou burrice de gente sem civilização. Geralmente, a democracia vem em forma de bombas, armas químicas, golpes de Estado e repressão em massa. Às vezes, a democracia explode uma escola ou mata milhares, principalmente quando a maior democracia do mundo confia nos militares destes países para ajudar seu povo a ascender à democracia real e plena da maior democracia do mundo. Nem sempre as pessoas aceitam serem civilizadas pela maior democracia do mundo. Quando ela quer nos ajudar a nos civilizar, ela começa uma campanha pelos direitos humanos. Mesmo que o governo que ela escolha para pôr no lugar viole diariamente os direitos humanos. Aí já não importa mais: fomos civilizados e as empresas da maior democracia do mundo podem vir nos dar empregos. Aos que restaram depois das bombas e dos militares, é claro.

Enfim, acompanhamos a festa da democracia na maior democracia do mundo. Nos maravilhamos com o glamour do evento. Tudo é solene, tudo é belo. Aqui, abaixo da linha do Equador, somos todos selvagens. Nessa terra autoritária onde nem tudo (ainda) está à venda e as pessoas teimam em exigir do governo saúde, educação e moradia – quer coisa mais autoritária que isto? -, só podemos ouvir as palavras dos iluminados na TV que comparam, com sorrisos irônicos e condescendência, nossa sociedade autoritária e burra com os auspícios luminosos da maior democracia do mundo. É por isso que nosso presidente está sempre com a bandeira da maior democracia do mundo ao seu lado, com mais destaque que a do seu país: ele só quer pedir para a maior democracia do mundo nos civilizar. Não gostou? Vai pra Venezuela!