Jornal Rio grande

Os desafios e expectativas da educação a distância na FURG

  • Matheus Magalhães da Silva
  • 06/11/20 as 14:32

A pandemia afetou todos as áreas e a vida em geral dos brasileiros. Em termos de educação, docentes e discentes das universidades federais tiveram de se adaptar a uma nova realidade: educação a distância (EaD). A novidade divide opiniões, mas, com as diversas medidas de segurança adotadas e o perigo de aglomerações, sobretudo em espaços fechados, só restou a possibilidade de recomeçar o ano letivo com aulas não-presenciais. Nossa reportagem procurou conversar com professores e alunos para saber quais são os maiores desafios, como funcionam os mecanismos adotados e as expectativas para o próximo semestre que deve ter início em janeiro de 2021.

Mauro Nicola Póvoas, 49, possui graduação em Letras/Português pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e mestrado e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Fez estágio pós-doutoral na Universidade de Lisboa e atua como professor associado do Instituto de Letras e Artes da FURG, dando aula para graduação e pós-graduação. Póvoas concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Rio Grande trazendo sua experiência e visão sobre o processo de EaD e os desafios que surgiram com a nova realidade da educação no Brasil sob a pandemia de covid-19:

JRG: Na sua experiência, quais foram os maiores desafios nesta transição de educação presencial para a modalidade a distância? O que mais mudou neste processo?

O que mais muda é a falta do contato presencial, as conversas, as perguntas, o olho no olho. Isso acaba não tendo, ou tendo em menor escala na EaD. 

JRG: Em termos de ação do MEC, você considera satisfatória a gestão de crise? Se não, no que poderia ser melhor?

Infelizmente, o governo federal está tomado por um grupo de pessoas incapacitadas para qualquer tipo de gestão, seja de uma situação de crise ou não, a começar pelo presidente, um inepto, fanático e ignorante. Com o MEC, não poderia ser diferente, a começar que, em pouco menos de dois anos, já tivemos quatro ministros da Educação. Assim, o que se viu foi um ministério completamente omisso, com as universidades tomando à frente e assumindo posições e decisões, até por absoluta falta de iniciativa do MEC.

JRG: Você acredita que modalidades a distância podem chegar ao mesmo nível de excelência de ensino das aulas presenciais?

É uma modalidade diferente, que tem as suas especificidades, e que pode funcionar bem, de acordo com a disciplina. A questão é que precisa de um envolvimento maior do aluno, que perde o referencial de turma, de acompanhamento presencial semana a semana, o contato mais direto com o professor. 

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JRG: Em relação à assiduidade dos alunos, você acha que foi mantida a média das aulas presenciais ou o número de alunos presentes nas aulas declinou?

Em geral, a modalidade a distância tem uma evasão maior, então estava com uma expectativa de que houvesse uma diminuição grande no número de alunos em cada uma das turmas, mas para minha surpresa, pelo menos em minhas disciplinas, por enquanto, a evasão tem estado dentro do normal. 

JRG: Na sua experiência, você acredita que todos os alunos têm acesso à tecnologia em casa para fazer uso das modalidades de ensino on-line como alegou o Governo Federal ou esta não é a realidade de Rio Grande?

Difícil de responder, não tenho esses dados neste momento. Tenho dado a maioria das aulas da maneira assíncrona, em que o aluno acessa o material disponibilizado no momento e no lugar que for o mais adequado para ele. Nas poucas aulas síncronas (ao vivo), em geral houve boa participação dos alunos, de suas casas, com uma ou outra falha de conexão, dentro da normalidade. 

JRG: Quais as suas expectativas para o ensino superior em 2021?

A FURG está terminando o primeiro semestre letivo de 2020 em dezembro de 2020, começando o segundo semestre de 2020 em fevereiro de 2021, com o término em maio. Assim, o ano letivo de 2021 começará em junho. Assim, pelo menos até maio do ano que vem, penso que as aulas vão continuar a distância.


E como os alunos veem o EaD?

Gabriella Jaehn Troina, 22, é estudante no curso de Engenharia Civil Costeira e Portuária. Em sua experiência, a maior mudança está sendo lidar com a falta de contato presencial com os professores e a interação que existe em sala de aula. “Isso acaba dificultando manter um foco e consequente a fruição do aprendizado”, pontua. Para ela, a carga horária modificou em relação ao momento anterior de normalidade: “algumas cadeiras estão ocupando mais tempo que o habitual, acredito que isso é devido a compactação do semestre e a demanda excessiva de conteúdos em prazos mais curtos”. Troina espera que o próximo semestre seja de mais organização se comparado a este primeiro. “Mas o meu maior desejo é que tenhamos acesso à uma vacina para que possamos retornar às aulas presenciais com segurança.”, observa.

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Gabriella Jaehn Troina

Ela explica que a FURG está utilizando um sistema ambiente virtual de aprendizagem (AVA): “é um mecanismo razoável, porém o problema está na questão do aluno nem sempre ter uma máquina disponível para o acesso à internet de qualidade, além de que a realidade de muitos é o uso do celular apenas, e no celular o sistema quase sempre é instável”.

Já Thales Senna Simões, 25, aluno do primeiro semestre da Faculdade de Direito da FURG, qualifica o AVA como satisfatório para o que se propõe. Para ele, as aulas a distância não proporcionam o mesmo ambiente de interação entre aluno e professor, característico das aulas presenciais. “Problemas técnicos ocorrem inúmeras vezes atrapalhando não só o ritmo da aula, mas também a compreensão do próprio conteúdo explanado”, observa o estudante. Ele enfatiza que a opção dos professores pelo conteúdo gravado e pré-disponibilizado, aquele que está disponível a qualquer momento para os alunos nas plataformas oferecidas pela universidade, nem sempre resulta em material de qualidade substancial: “muitas vezes, não conseguem construir uma apresentação interessante de forma que, em comparação com aquilo que se obteve presencialmente, percebe-se claramente que a qualidade da exposição não é a mesma”.

Senna afirma que, em sua percepção e experiência, a carga horária aumentou: “pelo fato de que diversos professores não aplicaram vídeo aulas, mas tão somente indicaram a leitura de textos, vídeos, e o cumprimento de atividades, em algumas disciplinas pude perceber um aumento na carga horária”. Entretanto, ressalta que não pode verificar o aumento em todas as disciplinas. Em relação ao próximo semestre, crê que terá o mesmo funcionamento do primeiro. “Ao meu ver, o retorno presencial só será ventilado para o ano letivo 2021 ou 2022”, conclui.