Jornal Rio grande

Público nos estádios ou uma forma de mandar o povo para o matadouro?

  • Jorge Hohmann
  • 09/11/20 as 0:56

Há quem diga que o nosso Brasileirão, ao contrário de estar dividido em séries “A” e “B”, deveria ser divido em “B” e “C”. Isso porque nossos “acima da média” de série “A” – aqueles que jogam futebol – estão fora do País. E que aqui ficaram os jogadores que apenas jogam bola, e que por isso submetem-se ao esquema de “time de escritório” idealizados pelos vetustos treinadores brasileiros. Tem fundamento. A exceção, sob a ótica dos  extras-classe que atuam no Brasil,  chama-se Éverton Ribeiro. Ao meu ver, ninguém joga mais do que ele. Cabeça em pé, passes e assistências muito acima da média, dribles desconcertantes, enfim...esse também joga futebol. Ao lado de Arrascaeta, fazem derreter qualquer estratégia montada por duas linhas, invariavelmente reforçadas e praticadas por  adversários locais de  menor qualidade. O momento do Flamengo é de remontagem do time e de nova convicção de jogo. Mas ainda assim, ainda é quem manda no futebol brasileiro.

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Logo que começaram as pre$$ões para a volta do futebol em meio a pandemia, a FIFA lançou um slogan em que constava a expressão “saúde primeiro”. Ora, racionalmente falando,  centenas de jogadores não deveriam estar viajando todos os dias pelo Brasil, outras centenas não deveriam estar voando pelo continente e outras centenas não deveriam cruzar oceanos a bordo de aviões para jogar futebol. Mas as prioridades são outras.

Não foram poucas nem curtas as discussões entre dirigentes de futebol para decidir como lidar com a pandemia do coronavírus. O estoque de racionalidade acabou rápido, as contas chegaram, os médicos consultados avaliaram que era possível conter os danos e houve consenso de que era possível voltar. A sociedade topou: Fifa, Conmebol, CBF, clubes, sindicatos, donos de direitos de transmissão, patrocinadores, torcedores, imprensa, enfim... as resistências todas caíram. O risco de jogar futebol durante uma pandemia praticamente deixou de pautar o noticiário e o debate, que passaram a se ocupar do de sempre: o que acontece em campo, o mercado de transferências, o vício em demitir treinadores. Seria hora de parar? O Flamengo entendeu que sim, mas só por uma partida - aquele duelo específico contra o Palmeiras, só enquanto seus melhores jogadores estavam  infectados e, portanto, temporariamente impedidos de atuar. As questões de saúde pública, que o clube brandiu para pedir o adiamento deste jogo, estariam novamente sanadas a partir da  segunda-feira. Depois disso o futebol não apenas deveria ser retomado normalmente como deveria ter o público de volta aos estádios.

A presença de torcedores nas arquibancadas foi discutida poucas semanas atrás por dirigentes da CBF, das federações estaduais e dos clubes da Série A. Num encontro virtual - afinal há uma pandemia em curso e isso impede 40 cartolas de se reunirem em torno de uma mesa -  mas não poderia ser obstáculo para 20 mil pessoas se deslocarem até um estádio. O futebol brasileiro produziu ali sua versão da infame reunião ministerial do dia 22 de abril, aquela em que o então ocupante da Educação sugeriu “pôr na cadeia os vagabundos do STF”. Nem tanto pela baixaria e pelos palavrões (que também os houve),  mas sim pelo show de incoerência e desconexão com a realidade exibida por alguns dos protagonistas.  Saúde primeiro "uns cambau"!

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Na terra do “já foi” ou que “já teve”, até quando continuaremos pagando o mico de possuirmos uma bela ciclovia no Cassino que precisa ser interrompida três vezes por semana por uma feira livre? Essa já é uma das maiores atrocidades praticadas pela administração local. É como se não houvesse, na maior praia do mundo, um espaço melhor a ser aproveitado para o uso da coisa pública a favor de interesses privados. Não são poucos os turistas de veraneio que comentam sobre isso em suas cidades natais sem o crédito de seus conterrâneos. Para acreditarem, só vindo aqui.

 

Jorge Hohmann é radialista