Jornal Rio grande

Cine Dunas: o início, a pandemia, o futuro

  • Redação JRG
  • 14/11/20 as 10:20

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Cine Dunas está fechado há vários meses

O acaso trouxe o casal Cleyton Abreu e Janete Jarczeski para Rio Grande. Ambos professores (ele, de Educação Física, ela, de História), foi por conta de um concurso público da rede estadual que Cleyton chegou à cidade. Janete veio, como ela diz, "seguindo o fluxo do coração".

O coração parece ser um importante guia para o casal, pois foi o motivador de mais uma mudança de rumo, desta vez no âmbito profissional.  "Cinéfilo desde criança", Cleyton notou que o Cassino tinha uma demanda cinéfila reprimida. Na época, ele conta, muitas pessoas se deslocavam até o centro da cidade apenas para ir ao cinema. E então, em 2005, ele resolveu entrar de cabeça nesse sonho: pesquisou sobre profissionais que pudessem montar a estrutura necessária (tela, som, poltronas etc.), buscou um prédio adequado e até se exonerou do serviço público estadual para se dedicar exclusivamente ao cinema. Janete se manteve professora e até hoje equilibra as duas atividades.

Hoje, quinze anos depois, o Cine Dunas se consolidou e se integrou à identidade do Cassino, possuindo um forte vínculo, até mesmo afetivo, com uma parcela fiel de seu público. Além do charme do cinema de calçada tradicional, hoje praticamente engolido pelos cinemas das grandes redes e de shoppings, o Dunas aposta em uma programação de qualidade, apresentando filmes de fora do circuito comercial - algo que faz inveja até mesmo na vizinha Pelotas, de onde, contam os proprietários, recebem muitos clientes e elogios.

Mantendo a parceria de sempre, foi por e-mail que, em conjunto, Cleyton e Janete responderam às perguntas do JRG, nesta conversa sobre o início, a tentativa no Centro, a pandemia e o futuro. Confira:

Os ditos cinemas de calçada, sem vínculo com grandes redes, são cada vez mais raros. Sobretudo quando apostam na qualidade das obras exibidas. Qual o segredo do sucesso Cine Dunas?

O Cine Dunas, desde sua inauguração, caminha na contra-mão da história. Primeiro por trazer à cena um cinema de calçada, em um prédio histórico da comunidade e com uma programação variada, exibindo filmes de diferentes nacionalidades e gêneros e ainda alguns blockbusters. O seu interior foi adaptado para acolher os espectadores do bairro, da cidade, veranistas e turistas. Nasceu no Balneário Cassino como costumavam nascer todos os cinemas do mundo: nas calçadas, ao alcance de quem passa, fazendo parte do cenário urbano e do cotidiano dos caminhantes, proporcionando uma outra linguagem visual que contribui para as relações de socialização e humanização. Estar na calçada é um diferencial: é convidativo chegar para olhar os cartazes, buscar informações, comer uma pipoca, encontrar alguém ou ir sozinho(a) ao cinema.

Isso fez do Cine Dunas, em termos de negócio, algo consolidado (ao menos até antes da pandemia)?

Nos dois primeiros anos foi muito difícil a permanência. Quase chegamos ao ponto de fechar, pois estava se tornando inviável e tínhamos muitas dívidas. Foi quando a solidariedade da comunidade cinéfila entrou em ação e surgiu o Cine Clube. Foi criada esta contribuição mensal que era revertida em vales-ingressos para quem contribuísse, podendo utilizar os vales com seus familiares ou amigos. Dessa forma, se garantiu um faturamento mínimo e aos poucos a frequência de público foi melhorando.
Diria também que se passou a confiar mais no próprio cinema, pois, como não tínhamos experiência no ramo, havia certa desconfiança por parte de uma parcela do público sobre a prosperidade do cinema. Mas aos poucos fomos rompendo essas barreiras e a importância cultural de oportunizar o acesso ao cinema no Cassino foi sendo reconhecida.

Por que o Cine Dunas do Centro fechou?

A sala do Centro fechou em dezembro de 2014. A partir de 2015 foi obrigatório, por imposição do mercado, a migração da exibição do sistema analógico para o sistema digital. Isso exigia um novo investimento de grandes proporções, inclusive ainda em financiamento [quanto à sala do Cassino]. De tal forma que optamos por ficar com uma sala somente, temendo adquirir dívidas de um montante que não conseguiríamos cumprir. Optamos em permanecer com a sala do Cassino, pois foi onde o Cine Dunas nasceu.

Agora fechado há mais de meio ano, qual o tamanho do impacto disso para o futuro do cinema?

Mesmo fechado, há despesas mensais que precisam ser saldadas. Desde abril desse ano, mais uma vez foi a comunidade que abraçou o Cine Dunas, evitando seu fechamento. Pela iniciativa da própria comunidade, foi ofertada a valorosa contribuição através do Cine Clube. A nossa intenção é reverter o valor em vales-ingressos, quando da reabertura do cinema. Tivemos contribuições de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre.
Reconhecemos e agradecemos imensamente esse gesto solidário de quem contribui para a manutenção do cinema, pois sem esse gesto não teríamos resistido até aqui.
Agora nos inscrevemos para o recurso emergencial da Lei Aldir Blanc. Aguardamos a contratação e liberação do recurso entre final de  novembro até 31/12.

Caso haja liberação da Prefeitura, o Cine Dunas pretende reabrir imediatamente?  Se sim, já há protocolos de segurança planejados?

Estamos trabalhando e procurando adquirir alguns materiais que são comuns a qualquer protocolo. Mas temos que aguardar o decreto municipal para saber ao certo o que realmente será exigido. Não sabemos se exigirão alguma adaptação que no momento não podemos prever.

Há temor quanto à viabilização do cinema se, por exemplo, levar ainda mais meses para uma reabertura? Ou mesmo quanto a ter de abrir as salas com metade da capacidade de público?

Na questão de redução da capacidade de público, não entendemos como o maior problema, pois muitas vezes, mesmo antes da pandemia, era difícil lotar as sessões. Temos 120 lugares. Nossa preocupação é manter as pessoas em distanciamento adequado na sala e higienizar os assentos utilizados entre uma sessão e outra.
De modo geral seria mais difícil ter de administrar uma nova necessidade de fechamento, isso talvez não só para os cinemas, mas para todos os estabelecimentos. Porém, é algo que não há como prever. O que a gente espera é que em todos os lugares os protocolos sejam cumpridos. As pessoas precisam atentar-se e ter uma postura comprometida e responsável em todos os lugares públicos que frequentam. Não basta que os estabelecimentos ofereçam os protocolos, mas cada um deve fazer a sua parte, pois o vírus habita entre nós.

Quais as expectativas quanto a 2021?

Muito difícil ter uma expectativa com perspectiva concreta. Esperamos que possamos ter uma vacina eficiente, de forma que as pessoas sejam imunizadas. Enquanto efetivamente isso não acontecer, teremos que atentar incondicionalmente para protocolos em todos os lugares. É assustador perceber que há pessoas que não compreendem a necessidade do distanciamento social e o cumprimento dos protocolos sanitários. Mas sigamos esperançosos para o retorno da projeção de histórias na telona do Cine Dunas. Reafirmamos a saudade da presença do público e abraçamos a todos e todas que compartilham desse sentimento. Mais uma vez agradecemos o gesto de generosidade indescritível para com o Cine Dunas. Essa demonstração de amorosidade e reconhecimento nos mantêm pulsando à espera do (re)encontro.

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A sala para 120 pessoas, agora vazia