Jornal Rio grande

Covid: orai e vigiai

  • Ique de la Rocha (ique@jornalriogrande.com)
  • 24/11/20 as 20:25

Enquanto autoridades e parte da população subestimavam os perigos da Covid escrevi, em certa ocasião, que ninguém estava livre da pandemia bater na porta da gente, de algum parente ou amigo. Fiquei entre aqueles que priorizaram a saúde. Passei quase seis meses dentro de casa, impedido de trabalhar e tentando fazer do limão uma limonada. Aproveitei os dias de ociosidade para cuidar da forma física. Todo dia praticava mais de uma hora de exercícios dentro de um apartamento, o que me ajudou a passar o tempo e a perder cerca de 10kg.

Meses depois flexibilizei um pouco. Passei a ir às feiras-livres que acontecem frente à minha casa, às quintas-feiras. Já esperava, ansioso, pela chegada desse dia, que era o meu “recreio”. Claro que, afora as quintas-feiras, de vez em quando dava uma saída, quando tinha de ir ao banco ou tratar de algum assunto inesperado, mas procurei me cuidar.

E com todos os cuidados peguei a Covid. Ou melhor, ela me pegou. Não sei onde errei, mas o certo foi que “abri a guarda” e basta isto, facilitar um pouquinho só, para que a Covid nos pegue. E depois que ela nos pega, estamos nas mãos dela. Nossa vida está nas mãos dela. Que nem uma vítima de assalto. Quando o assalto acontece a tua vida está na mão do bandido.

Tem pessoas que são assintomáticas. O percentual de mortes é pequeno, mas essa gripe não é nada fácil. Para começar, não sei se os assintomáticos são maioria, mas sei que dos infectados uma boa parte tem sintomas. E não dá para afirmar que determinada faixa de idade está imune. Entre as vítimas fatais da Covid tem gente de todas as idades, com comorbidades e sem comorbidades. Afora elas, um grande número foi entubado ou, no mínimo, teve de baixar hospital.

O que está sendo dito aqui é do conhecimento de todos, mas nunca é demais alertar. A Covid bateu na porta de muita gente, inclusive na minha porta. Eu e meu filho fomos infectados. Aparentemente não enfrentei perigo de morte, mas essa ameaça é real. Eu não tive falta de ar, dores e não perdi o paladar, mas tive muito cansaço, fraqueza, uma tosse insistente e duas noites em claro. Tu olhas um prato de comida, pela metade, e não tens força para comer. Tem de ir empurrando, senão enfrentar a doença com uma fraqueza será pior ainda. Tem momentos que te sentes bem, parece que vai melhorar, e depois piora de novo. Depois de considerado curado (foram quase três semanas), precisa cuidar das prováveis sequelas, que podem ser desde um AVC até outros sintomas. No meu caso foi uma semana a mais de muito cansaço e tudo isso também mexe com o teu emocional.

Agora imaginem se a Covid atinge uma família com outras dificuldades, o que não é incomum nesta crise financeira agravada pela pandemia. E se faltar dinheiro para medicamentos ou para a própria comida, como fica? Sem falar no pânico que seria a possibilidade de outros membros da família serem infectados.

O modo como a Covid atinge suas vitimas varia de paciente para paciente e a intenção deste artigo é alertar a todos para os perigos dessa gripe, mostrar que hoje ela ainda é uma ameaça real para todos nós. Não facilite. Não vá atrás do discurso de que é uma gripezinha. A pandemia está mostrando quem é quem. Quem valoriza a vida e o próximo e quem não está nem aí. Eu mesmo, de tanto ouvir as falácias de nosso presidente da República, cheguei a pensar em determinado momento que, de fato, o bicho não era tão feio. Mas é feio, pode ser terrível e pode acabar com a tua vida ou a vida de alguém que te é muito caro.

Ainda hoje, momentos antes de escrever este comentário, uma amiga me observava que no Canalete, onde ela mora, “tem mais cachorro de coleira que pessoas de máscara”. Não é de hoje que todo mundo está dando mole e não se pode dar chance ao azar.

Vamos nos cuidar. Costumo dizer que, infelizmente, este é um ano para a gente sobreviver. Quem chegar vivo em 2021 já estará no lucro. Depois, com saúde, vamos correr atrás, mas um acidente de percurso, que seria a infecção pela Covid, pode mudar tudo e piorar o que já está ruim. Ah! Durante minha enfermidade tratei com médicos do sistema de saúde (diga-se de passagem, atendimento excelente de médicos e funcionários), bem como com dois médicos, parentes próximos. Nenhum deles me receitou a hidroxocloroquina.

Até a vacina chegar, te cuida!