Jornal Rio grande

MARADONA: o mais humano dos deuses

  • Jorge Hohmann
  • 26/11/20 as 0:56

Observando dezenas de milhares de postagem nas redes sociais sobre a morte do inesquecível Maradona, decidi tirar o pó e remexer na minha estante de livros para achar as obras que tenho de Eduardo Galeano – uma cabeça iluminada de tanta inteligência que tornava-se fácil para ele representá-la em frases. 

Não faz muito tempo que reli (acho que pela quarta vez) “As Veias Abertas da America Latina”. Vez que outra procurava o espetacular “Futebol, ao Sol e a Sombra”. Não menos sensacional  do que “As Caras e as Máscaras”. Mas foi no livro “Espelhos, Uma História Quase Universal”, lançado em fevereiro de 2008, que Galeano põe no papel a melhor, mais lúcida e apropriada visão sobre um verdadeiro fenômeno de verdade (e não fruto de marketing) chamado Diego Maradona. Vale a pena reproduzir um trecho:      

“Nenhum jogador consagrado tinha denunciado sem papas na língua os amos do negócio do futebol [vale lembrar que hoje futebol só é esporte para o simples torcedor...]. Foi o esportista mais famoso e popular de todos os tempos quem rompeu as barreiras para jogadores que não eram famosos e nem populares. Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas 5 minutos, os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneram pelos dois: não era apenas digno do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou. Dieguito foi adorado não apenas por seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador... o mais humano dos deuses. Qualquer um poderia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas: mulherengo, beberrão, usuário de drogas pesadas, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável. Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam. Ele jamais conseguiu voltar para a anônima multidão de onde vinha. A fama, que o havia salvo da miséria, tornou-o prisioneiro. Maradona foi condenado a se achar Maradona e obrigado a ser estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório”. Colossal!

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Aliás, o tema nos remete para o porquê da rivalidade entre Brasil e Argentina se não foi a Argentina que nos tirou a Copa do Mundo de 1950, num frangaço do nosso goleiro Barbosa quase ao final da decisão contra o Uruguai dentro de um Maracanã com 200 mil pessoas torcendo para o “escrete” brasileiro. Ora, a história que explica a rivalidade futebolística intensa entre Brasil e Argentina começa antes até de Brasil e Argentina existirem. Espanhóis e portugueses iniciaram essa rixa logo após o descobrimento da América, quando dividiram suas terras no Tratado de Tordesilhas. E os desdobramentos dessa divisão provocaram faíscas entre os dois novos países latino-americanos. Mas os mais antigos, ou leitores de Olavo de Carvalho (ops! Tive um pequeno espasmo intestinal), preferem a acidez do conto de 1920, quando a seleção brasileira viajou a Buenos Aires para disputar um jogo que deveria ser amistoso, mas acabou acendendo os ânimos entre os dois países por uma charge de jornal que nos retratava como “los macaquitos”, por causa da presença de quatro jogadores negros no elenco brasileiro. Esta maldita doença,  denominada de racismo, é de longo tempo mas até hoje é cultuada por gente má, sem escrúpulos, entre as quais muitas que ocupam cargos poderosos e que deveriam dar o exemplo ao invés de transmiti-la.

 

Jorge Hohmann é radialista