Jornal Rio grande

Um ídolo de carne e osso

  • Ique de la Rocha (ique@jornalriogrande.com)
  • 26/11/20 as 22:52

Como a grande maioria das pessoas, também elejo os meus ídolos. Tenho alguns no futebol, na música, outros ligadas à espiritualidade ou religiosidade. Costumo levar muito em conta aquelas pessoas que demonstram capacidade no que fazem, pessoas do bem e que tem uma vida coerente entre o discurso e a forma como vivem.

Mesmo tendo alguns ídolos, também tenho restrições à tendência das pessoas de vulgarizarem a idolatria. No Brasil, principalmente, estamos cansados de ver os grandes órgãos de comunicação, na ânsia de criarem mitos para ter audiência, ajudarem a criar verdadeiros ídolos de barro. Que nem muitos heróis brasileiros, que não resistiriam a um exame mais apurado de suas ações.

Mas, felizmente, existem pessoas que a gente admira, pessoas de valor que se destacam em suas atividades e que, de fato, merecem nossos aplausos e até que a gente os tenha como exemplos.

Sempre fui fã do Diego Maradona. No tempo que ele jogava eu estava em plena juventude. Nessa fase vocês sabem o quanto é difícil para um jovem se levantar mais cedo, no domingo, para assistir a uma partida de futebol, em plena fase dos “embalos de sábado à noite”.

Todo o domingo pela manhã eu me programava para assistir aos jogos do Maradona, pelo Nápoli, que eram apresentados no Brasil pela TV Bandeirantes. Sempre me encantava e, quando falo nisso, me vem à memória duas jogadas do craque argentino. Uma, pelo lado direito do campo, em que ele é cercado por dois adversários e, não se sabe como, passa no meio dos dois como se fosse um papel passando por um espaço mínimo. Outro lance, dos tantos protagonizados por Dieguito, que não esqueço foi de um gol dele. A bola, chutada da defesa para o ataque, veio caindo entre Maradona e o goleiro adversário. O craque acompanhou o tempo certo da bola, chegou primeiro que o goleiro e ainda fez uma pose para, com os olhos abertos, escolher onde colocar a bola, por cobertura, marcando mais um belo gol.

As jogadas e os gols de Maradona são inúmeros. Não dá para mostrar tudo. A TV mostra, insistentemente, aquele gol contra a Inglaterra, maravilhoso e muito simbólico por ter acontecido em seguida da Guerra das Malvinas. Mas poderia mostrar, também, que após aquele jogo, Maradona ainda marcou um golaço no jogo seguinte, contra a Bélgica, quando ele pegou a bola na meia direita e foi driblando quatro ou cinco jogadores, até ficar na frente do goleiro, já no lado esquerdo da pequena área.

Gol contra a Bélgica, na semifinal da Copa de 86

Minha simpatia pelo argentino  não passou com o tempo. Hoje, graças ao You Tube, não raras vezes procuro as jogadas do Maradona, que são um deleite para mim e para quem gosta de futebol. E agora, com seu falecimento, as manifestações lembram o grande craque que ele foi e o quanto ele transcendeu as quatro linhas do campo. Em Nápoles, na pobre metade sul da Itália, ele levantou a auto-estima da população, que se considerava inferiorizada perante o norte, a metade rica daquele país. Na Argentina ele sempre se colocou ao lado dos mais pobres e nunca esqueceu suas origens, tanto que sua esposa, Claudia, era uma namorada desde os tempos de pobreza. Vi alguém contar na TV que, certa vez, Dieguito recebeu uns pobres que bateram em sua casa e eles perguntaram: por que nos recebestes, se somos favelados? Ele respondeu: “Exatamente por isso!”. E todos os que conviveram com ele dizem que foi sempre assim: simples, brincalhão e muito amigo de todos.

Maradona só teve um adversário que não conseguiu vencer: o vício das drogas. Existem imagens dramáticas, de entrevistas dele chorando e dizendo que, se pudesse voltar atrás, teria feito isso. Ele nunca se escondeu e deixou que o colocassem como exemplo negativo e do quanto as drogas podem destruir uma pessoa.

Há questão de duas semanas eu tinha visto um vídeo, no Youtube, dele sendo ovacionado no gramado do estádio La Bombonera. Fiquei chocado. De tão gordo, ele mal podia caminhar. Tinha alguém sempre do lado para ampará-lo. Parecia deformado fisicamente e ofegante. Já não tinha mais qualidade de vida. O vício abreviou o futebol e a vida de Maradona, mas suas virtudes sempre foram maiores que seus erros. Se ele fez mal para alguém, foi para ele mesmo, mas era impossível ser indiferente ao ídolo argentino. Aonde ele chegava tinha agitação, graças ao seu carisma.

Maradona, como técnico do Gimnasia, sendo homenageado na Bombonera, em novembro do ano passado

Maradona partiu do nosso convívio, mas seus feitos, e mesmo suas contradições, jamais serão esquecidos. Ao invés de ídolo de barro, ele foi um ídolo de verdade, que sabia conquistar as pessoas dentro e fora do campo. E o principal: ao invés de se colocar num pedestal ele se expôs e mostrou que era um ídolo, mas um ídolo de carne e osso, com suas virtudes e seus defeitos. Tão humano como qualquer um de nós. Este é o meu modelo de ídolo e, por isso, eu sou e continuarei sendo um grande fã do Maradona.