Jornal Rio grande

O frigorífico Swift

  • Luiz Henrique Torres
  • 29/11/20 as 15:12

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O frigorífico Swift em cartão postal. Acervo Bibliotheca Rio-Grandense

A tecnologia de ponta e a divisão do trabalho presente num estabelecimento frigorífico constituiu um referencial prático do anseio da sociedade burguesa no controle da natureza a partir do domínio científico e tecnológico. No início do século XX, Rio Grande assistiu a esta demanda de capitais excedentes, como o frigorífico Swift e no estabelecimento da modernidade capitalista através de obras de engenharia como os molhes da barra e o Porto Novo.

A Companhia Swift do Brasil S.A. foi fundada nos Estados Unidos, implantando seu parque industrial em Rio Grande, junto ao Porto Novo, em 1917. O frigorífico ocupava uma área de cerca de 27 hectares, constituída de vários prédios numa especialização das atividades e dos diversos setores.

Podendo abater até 1000 reses por dia e empregando até 2.000 funcionários, o frigorífico tinha por meta congelar ou resfriar, assim como aproveitar os subprodutos do gado, voltando-se ao mercado europeu e norte-americano. Entre os produtos exportados estavam quartos de rês, miúdos de carne, carne enlatada, extrato de carne, óleo e línguas enlatadas, couros salgados, sebo, azeite de mocotó, chifres, ossos para cola, nervos, cascos, crina, adubos etc.

Num dos amplos prédios construídos existiam salões de vestir para homens e mulheres com lavatórios e banheiros com água fria e quente. Havia restaurante interno para os empregados. Posto de atendimento médico e sala cirúrgica estavam disponíveis para vítimas de acidentes de trabalho. A rigorosa higiene no estabelecimento e o controle de qualidade sobre os produtos eram garantidos com um laboratório dirigido por um químico, no qual se analisava diariamente amostras do gado.

No parque industrial estavam disponíveis residências para os principais funcionários e técnicos norte-americanos. A Companhia de Bondes da cidade manteve uma linha que transportava os empregados até o frigorífico. Para escoamento da produção, foi construído um cais próprio que agilizava o carregamento dos navios. Era uma pequena cidade em funcionamento, com hospital, laboratório, restaurante e porto particular, onde dezenas de milhares de pessoas dependiam, no interior ou fora dos muros de sua urbanidade, da manutenção de suas atividades.

A facilidade de escoamento via marítima era o atrativo principal para a Swift estabelecer-se em Rio Grande. A cidade afirma-se, neste período, como referência na parte sul do Estado para a busca de empregos e perspectiva de sobrevivência frente ao descompasso entre o crescimento populacional e a restrita geração de emprego nos latifúndios pecuaristas. No conflito entre capital e trabalho, a lógica da empresa e a racionalização assumida no gerenciamento administrativo estavam voltadas ao lucro e à dinâmica do mercado externo.

 

Luiz Henrique Torres (Facebook: @professorlhtorres, blog historiaehistoriografiadors.blogspot.com) é historiador e professor da FURG