Jornal Rio grande

A opção do eleitor foi pela política de resultados

  • Elis Radmann
  • 02/12/20 as 1:42

 

O segundo turno das eleições mostrou que o destino do voto dos eleitores está mais associado às “entregas”, à continuidade de governos bem avaliados ou às propostas de candidatos com perfil de gestão e que defenderam melhorias em áreas como saúde, infraestrutura e retomada econômica. 

Muitos analistas se preocuparam em sinalizar o caráter ideológico das eleições, fazendo especulações e ilações com as eleições de 2022. 

É fato que alguns candidatos, tanto no RS quanto no Brasil, tentaram elevar o tom ideológico e associar a disputa a uma narrativa de direita e esquerda. Em Porto Alegre, esse cenário ganhou mais relevância após a morte de João Alberto no Carrefour, onde as manifestações passaram a associar o racismo a uma política fascista em curso e os programas eleitorais debateram racismo, gênero e desigualdade social. 

Por mais que uma parcela importante do eleitorado considere que haja a necessidade de debater temas relacionados ao preconceito social, para o eleitor essa não é a agenda de uma eleição municipal, ainda mais no meio de uma pandemia.

O eleitor desejava empatia com os seus problemas, empatia com as suas dores, e isso diz respeito a capacidade do candidato compreender toda a jornada de uso de cada grupo de eleitores. Ou seja, se o tema for mobilidade urbana o eleitor que utiliza ônibus quer que o Prefeito eleito tenha soluções para suas mazelas. O eleitor que utiliza bicicleta, quer que o Prefeito eleito veja o seu lado e o que anda de carro, espera que o Prefeito eleito tenha a capacidade de zelar pelas ruas, sinalizações e gestão de todos esses diferentes públicos no mesmo espaço.

Na cabeça do eleitor o Prefeito precisa ser um “gerentão” ou até um “técnico de futebol”, alguém muito ativo, que tenha capacidade de conduzir o seu time com o melhor planejamento, com uma visão sistêmica de todas as realidades que compõem a cidade. O eleitor quer que tudo funcione da melhor forma, com a menor burocracia possível. Agilidade é a grande expectativa!

O resultado das eleições nos mostra que o eleitor pragmático se sobrepôs ao eleitor ideológico, tanto é que as urnas não se mostram favoráveis para nenhum dos extremos, do “bolsonarismo” ao “petismo.”

Mas a supremacia do eleitor pragmático não é o único aprendizado com o resultado das urnas. É necessário observar o grau de negação com a política expressado nas abstenções e nos votos brancos e nulos. As eleições municipais apresentaram o maior índice de não participação eleitoral dos últimos tempos, onde temos que considerar a influência da pandemia (sendo que muitos eleitores não votaram em função do isolamento social).

Se considerarmos as cinco cidades com segundo turno no RS, somente Porto Alegre mostrou uma leve diminuição nos índices de abstenção, no primeiro turno se abstiveram 33,08% e no segundo 32,76% (sendo que esse movimento foi estimulado pelas campanhas, que conclamaram os eleitores para a participação).

Nas demais cidades, a tendência foi de crescimento da abstenção. Em Caxias do Sul a abstenção subiu de 24,79% para 25,37%. Em Canoas de 28,22% para 31,67%. Em Pelotas, no primeiro turno se abstiveram 26,58% e no segundo turno 29,39%. E, em Santa Maria, foi de 28,82% para 31,34%.

Diante desse contexto, temos que ter em mente que os eleitores que não participaram do pleito poderiam mudar os resultados em qualquer uma das cidades. 

 

Elis Radmann é cientista social e política pela UFPel e fundadora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião