Jornal Rio grande

A Gripe Espanhola em Rio Grande

  • Luiz Henrique Torres
  • 06/12/20 as 11:30

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Enfermaria no Rio de Janeiro, 1918. Biblioteca Nacional Digital

A gripe chegou ao Brasil em setembro de 1918 a bordo do vapor inglês Demerara, que atracou nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro (em 14 de setembro). A propagação foi rápida, atingindo até a Amazônia, onde fez desaparecer tribos indígenas. Nas primeiras semanas de outubro, o Rio de Janeiro tornou-se um “vasto hospital”. Desembarcando nos portos do litoral o vírus chegou até o Sul.

A cidade do Rio Grande, no extremo sul do Brasil, é o espaço portuário que deu início ao processo industrial de grande porte no Rio Grande do Sul. É pelo Porto Velho do Rio Grande que o vírus entrou no Estado do Rio Grande do Sul e se difundiu pela Lagoa dos Patos, Lagoa Mirim e rios da Bacia do Atlântico, posteriormente, tendo ampla circulação estadual.

Nas vésperas da epidemia, em outubro de 1918, o discurso oficial do governo estadual apresentava o estado sanitário do Rio Grande do Sul como satisfatório buscando minimizar as precárias condições médico-higienista. Porém, o relatório do Dr. Euclides de Castro Carvalho da Diretoria de Higiene do RS (1917) registrou: “...não podemos ocultar que dia a dia aumentam as cifras da letalidade infantil tanto em Porto Alegre como em outras cidades do Estado. (...) É uma dolorosa evidência verificarmos que na cidade de Rio Grande o obituário infantil atinge o máximo limite conhecido em todo o mundo”.  Até completarem dois anos de idade, metade das crianças falecia no município, evidenciando as precárias condições alimentares, de infraestrutura e de higiene.  Com a gripe desembarcando na cidade a situação de miséria endêmica assumiria um contorno de extrema gravidade. E o vírus estava desembarcando no Porto Velho na primeira quinzena de outubro...

A epidemia fez o seguinte trajeto para entrar no Rio Grande do Sul. Na manhã do dia 9 de outubro, chegou ao porto do Rio Grande o vapor Itajubá, da Companhia de Navegação Costeira. Estavam a bordo 38 tripulantes convalescendo da Espanhola. O Inspetor de Saúde do porto, Dr. Leonel Gomes Velho, afirmou que a “influenza é de caráter benigno e não contaminou nenhum passageiro”. No dia 10 de outubro o jornal O Tempo, de Rio Grande noticiou: “continua interdito em nosso porto o paquete Itajubá (...) O navio foi desinfetado e os enfermos se acham todos em condições satisfatórias. A remoção destes para o lazareto não se deu ainda hoje, devendo ser feita amanhã, quando aquele estabelecimento, que há muito não funciona, ficar de todo preparado para recebê-los”. 

No dia 12 de outubro, o vapor Itaquera atracou no porto com 32 tripulantes gripados que foram encaminhados para o Lazareto da cidade. Após sair do Rio de Janeiro, os primeiros casos começaram a aparecer e os portos do Paraná e Santa Catarina não aceitaram que ele atracasse. O navio foi desinfetado em Rio Grande e seguiu para Porto Alegre chegando a 14 de outubro. O vapor Mercedes do Lloyd Brasileiro chegou a Porto Alegre em 16 de outubro vindo de Rio Grande com sete tripulantes doentes. O Ministro da Justiça enviou correspondência a Borges de Medeiros considerando inútil o isolamento de doentes afirmando que se a gripe surgir no porto do Rio Grande invadiria a cidade como fez no Rio de Janeiro.

Em Rio Grande, passageiros do paquete Itajubá, vagavam pelas ruas da cidade, pois eram recusados nos hotéis. O primeiro óbito ocorreu em 14 de outubro. A faixa etária mais atingida foi de 21 a 30 anos. O maior número de vítimas era operários, comerciários, jornalistas/jornaleiros, foguistas, militares, agricultores. Comércio e indústria fecharam e até jornais pararam de circular por falta de pessoal. Os remédios e alimentos subiram desrespeitando o tabelamento de preços. Se a espanhola foi democrática na virulência de sua transmissão, às precárias condições alimentares dos trabalhadores de baixa renda e seus familiares poderia significar uma menor resistência às patologias que sucediam à gripe. Para estes grupos, diaristas, não trabalhar também significava falta de renda para aquisição de alimentos ou remédios. A epidemia declinou em 15 de novembro de 1918 tendo matado mais de 500 pessoas na cidade do Rio Grande. 

 

Luiz Henrique Torres (Facebook: @professorlhtorres, blog historiaehistoriografiadors.blogspot.com) é historiador e professor da FURG