Jornal Rio grande

Entrevista: Eduarda Xavier, coordenadora da Casa do Menor Rio Grande

  • Matheus Magalhães da Silva
  • 08/12/20 as 14:14

A Casa do Menor de Rio Grande é uma ONG dedicada ao acolhimento e cuidado para com adolescentes que estão em situação de vulnerabilidade. Este belo projeto, para além dos cuidados mais imediatos e acompanhamento psicossocial dos menores residentes, também vem promovendo iniciativas para oferecer aos adolescentes acolhidos terapia e sentimento de pertencimento através do lazer e do esporte.

Um destes projetos especiais trabalha com uma das atividades preferidas da juventude o que permite uma maior chance de tocar os acolhidos e lhes despertar o interesse para o esporte e para a cultura que o permeia. Trata-se do projeto Manobrando Desafios que tem o skate como forma de oferecer lazer, cultura e educação através do esporte para a garotada.

Conversamos com Eduarda Hadrich Pavão Xavier, 26, coordenador da Casa do Menor. Nesta entrevista, procuramos saber sobre as intenções do projeto, como ele funciona, como a comunidade pode ajudar e, naturalmente, sobre os desafios que a ONG está enfrentando com a pandemia bem com as esperanças para o ano que vêm.  

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Eduarda Hadrich Pavão Xavier 

Qual foi o ímpeto para a criação deste projeto de inclusão?

A criação do projeto partiu de uma estratégia de saúde mental da Casa do Menor, em oferecer atividades que realmente pudessem despertar o interesse do adolescente acolhido, para que eles realmente vissem um sentido em participar de uma oficina.

A instituição idealizou o projeto baseando-se em histórias de pessoas que passaram por momentos difíceis e que viram nesse esporte e na cultura de rua um novo sentido para vida. Além disso, pensou que o skate abrange não só o envolvimento com o exercício em si, mas que também possui uma linguagem mais próxima dos acolhidos, de forma a acessá-los mais facilmente, criar vínculo e construir uma relação mais leve e mais próxima, permitindo que os mesmos interajam socialmente e se desenvolvam de forma mais saudável.

Como funciona o projeto? Ele tem boa recepção entre os acolhidos da casa?

O Projeto Manobrando Desafios começou no ano de 2016, em parceria com a "Escola de Skate VS Fun Kids" e se mantém até hoje funcionando todas as sextas-feiras das 9h às 11h, no Skatepark do balneário Cassino (salvo a pausa momentânea das aulas na pista em função da pandemia). 

O projeto tem uma ótima recepção entre os acolhidos, geralmente a nossa "kombi" superlota e levamos os demais de ônibus para não perderem a oportunidade de participar. Percebemos que os acolhidos, inclusive, apresentam uma rotina mais organizada e disciplinada neste dia. 

Você acha que é importante projetos desta natureza para ajudar os acolhidos a se ambientar e se sentirem mais motivados?

Estes projetos visam à formação, socialização e promoção da saúde em crianças e adolescentes em situação de risco social. Tem como objetivo a inclusão social, visando uma construção participativa, tendo como princípio a educação através do esporte. Portanto, contribui com o papel de intervir em situações que envolvam a motivação, personalidade, agressão e violência, bem-estar, aderência, autoestima, entre outros aspectos.

De acordo com nossa experiência, percebemos que os acolhidos que estão acostumados com a cultura da rua, infratores ou não, possuem uma grande desconfiança em relação a tudo e todos. Trabalhos de intervenção como o projeto Manobrando Desafios, possibilitam que eles se abram a novas formas de vínculo e que construam outras possibilidades de encaminhar suas histórias. Portanto, nosso projeto tem como valores uma atitude receptiva e acolhedora no momento da chegada do adolescente ao projeto e durante o período de acompanhamento considerando cada individualidade, cada história pessoal, sem enxergá-los apenas como frutos de uma problemática social. Considera, ainda, cada acolhido como um indivíduo único e que trás uma demanda pessoal de sofrimento que deve ser enxergada, acolhida e orientada.

Como a comunidade riograndina pode ajudar esta iniciativa?

Estamos planejando as atividades para 2021, em que pretendemos ter o nosso próprio material (Skates, tênis adequados para o esporte, equipamentos de proteção,etc...). A comunidade riograndina pode apoiar a oficina doando o material diretamente na instituição, ou realizando doação em dinheiro para realizarmos a compra. Ficamos sempre à disposição da população para sanar dúvidas e contar sobre o nosso trabalho.

Em relação à pandemia, como ela afetou o funcionamento da casa?

A Casa do Menor é uma instituição de acolhimento especializada no público adolescente, que chega na instituição por ter tido um/ou mais direitos fundamentais violados e por não ter nenhuma figura familiar ou de referência com possibilidades de acolher naquele momento, o que gera um profundo sofrimento psíquico. 

Na pandemia, percebemos o impacto da falta de atividades de rotina na organização psicossocial dos acolhidos. Atividades fora dos limites da instituição, como escola, esportes, oficinas e cursos auxiliam a envolvê-los em demandas saudáveis e entrar em contato com outros universos. A falta dessas atividades está impactando diretamente no agravamento dos casos. 

As doações seguem num ritmo que você julga adequado ou teve queda?

Com a pandemia percebemos uma maior sensibilização e mobilização das pessoas, comparado ao ano anterior recebemos mais cestas básicas esse ano. Além disso, muitas pessoas realizaram ações para confeccionar máscaras, que estão nos mantendo até hoje sem precisar arcar com este custo. 

Você tem ideia de quantas pessoas a Casa do Menor contempla hoje?

A Casa do Menor atende em média 20 acolhidos e suas famílias. 

A instituição é um lar, portanto funciona 24h por dia. Além disso, realiza acompanhamento e orientação às respectivas famílias, e apoia com alimentação na maioria das vezes. 

Qual sua expectativa para 2021?

Eu tenho a expectativa de estreitar os laços da Casa do Menor com a comunidade riograndina. Desejo que as pessoas se interessem, conheçam e acreditem no trabalho que é desenvolvido por nós na Casa do Menor em favor dos adolescentes. Nossa equipe é qualificada, dedicada e incansável.  Com isso, esperamos realizar novas parcerias com empresas locais, e também com as pessoas da comunidade que se sintam mobilizadas para abraçar esta causa! 

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Como ajudar?
Atualmente, a Casa do Menor está pedindo para a comunidade doações de skateboards ou uma contribuição em dinheiro. Caso você deseje doar material para o esporte, o contato com a Casa pode ser feito através do telefone (53) 3231-2141 ou através do email casadomenor.rg@gmail.com

Para depositar uma contribuição, a ONG disponibiliza conta:

Banco do Brasil

Agência: 00841

Cc: 19316-x