Jornal Rio grande

Momento é de solidariedade ou da falta dela?

  • Ique de la Rocha (ique@jornalriogrande.com)
  • 13/12/20 as 10:05

 

Temos visto algumas pessoas, e até entidades de classe, no Rio Grande e por todo o Brasil, se manifestarem contra o fechamento do comércio nesses tempos de pandemia. Não tenho procuração para defender quem quer que seja, mas, ao contrário do que alguns tentam nos fazer acreditar, não há motivações ideológicas para que tal situação perdure. O que existe é uma preocupação muito grande, daqueles que pensam nos seus e nos semelhantes, com o vírus que está por aí, a cada dia levando mais gente (já são 180 mil mortos no Brasil), sem falar nos que se recuperam, mas ficam com sequelas. E não há, no momento, solução para acabar com essa situação de uma vez por todas.

Se existem motivações políticas é mais da parte do próprio Governo Federal, como se vê na disputa com o governador João Dória, de São Paulo. Lamentavelmente temos um presidente da República que nem merece ser chamado dessa forma, porque Jair Bolsonaro vem demonstrando, praticamente em todos os dias de seu governo, com suas manifestações desastradas, que não tem postura e nem preparo para o cargo, embora o meu respeito às opiniões em contrário.

Entre os seus seguidores, alguns justificam a adesão ao bolsonarismo por serem hoje anti-PT ou anti-comunistas. Veem a China como inimiga, da mesma forma todos os que pensam de maneira contrária. Basta ser contra Bolsonaro, que já demonstrou não estar nem aí para o meio ambiente, nem para a Covid, nem para os mais pobres, para ser rotulado de “vermelho”. Alguns desses seguidores até se dizem cristãos, como ele, mas não seguem Cristo, que em nenhum trecho do Evangelho pregou o ódio ou a divisão entre as pessoas. Se colocava sempre ao lado dos sofredores, dos mais humildes e valorizava a vida, acima de tudo.  

Mas, voltando à nossa aldeia, nesta semana a CDL do Rio Grande lançou mais uma nota defendendo o direito de o comércio manter suas portas abertas. “Não podemos mais aceitar que sigam culpando e penalizando o comércio da região sul pelas inúmeras trapalhadas políticas no combate a pandemia do Coronavírus. Por isso, repudiamos veementemente a ação do Executivo pelotense de em pleno mês de dezembro fechar o comércio. Nos solidarizamos com os colegas pelotenses”. Deveriam explicar que trapalhadas são essas: do prefeito, do governador ou do Bolsonaro, que desde o início desdenhou da pandemia e incentivou aglomerações?

Quando a nota fala em solidariedade com os pelotenses, observamos que solidariedade é o que está mais ausente nesses tempos de pandemia, como podemos ver nas pessoas que circulam sem máscaras e frequentam lugares de aglomeração, sem demonstrar respeito ao próximo, especialmente aos que estão sofrendo por causa da Covid ou fazem parte dos grupos de risco.

Claro que se entende as aflições que passam os comerciantes e todos aqueles que tiveram suas atividades profissionais interrompidas. Não é bom nem para patrão, nem para empregado, nem para ninguém. Todos estão, de alguma forma, sofrendo, mas para uma epidemia que não tem cura e mata, o que fazer, a não ser seguir as recomendações da ciência e da Organização Mundial da Saúde (OMS)? São muitos os países no mundo, sobretudo os de melhor resultado no enfrentamento do coronavírus, que fizeram lockdown.

Será que o Bolsonaro é que estava certo, quando disse que a Covid era uma “gripezinha” e que a hidroxiocloroquina curava? A “gripezinha” cada vez mata mais epesquisas científicas já comprovaram a ineficácia desse medicamento no combate à Covid.

A nota da CDL reclama que “foram nove meses em que os prefeitos, governadores e Executivo Federal tiveram para preparar o Brasil com tratamento precoce, testagem e ampliação de infraestrutura de saúde. Não fizeram – ou fizeram muito pouco – e agora querem novamente colocar nas costas dos comerciantes e trabalhadores o preço – cada dia mais impagável – dessa pandemia”.

Cabe salientar que “tratamento precoce”, muito mencionado por bolsonaristas, não é recomendado pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e essa orientação está alinhada com sociedades científicas e médicas internacionais, tais como o Instituto Nacional de Saúde, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), Organização Mundial da Saúde e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A nota faltou esclarecer, ainda e a bem da verdade, que foram nove meses de registros crescentes da Covid no Brasil não por incompetência de prefeitos e governadores, mas do presidente Bolsonaro, que desde o início boicotou as medidas que se tomava para prevenir a pandemia. Talvez se a população tivesse aderido ao isolamento social, por um mês ou um pouco mais, poderíamos ter regularizado a situação, mas enquanto se incentivar as aglomerações vamos ter de conviver com a Covid, abrindo o comércio numa semana e fechando na outra, até a chegada da vacina, que para a maioria da população brasileira só estará disponível em meados de 2021.

Mas, quem sabe a CDL, se vier a lançar outra nota, age de forma mais objetiva, sugerindo um protocolo mais eficiente que o empregado atualmente nos estados e municípios e apresentando um plano para evitar o colapso nas UTIs de nossos hospitais? Quem vê “trapalhada” no que fizeram até agora governadores, prefeitos cientistas e Organização Mundial da Saúde, deve ter algo melhor a oferecer. Enquanto isso, médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde continuam incansáveis, arriscando suas vidas para salvar as dos seus semelhantes. Eles, que deveriam ser declarados Heróis Nacionais, pois esta guerra faz mais vítimas que qualquer outro conflito, infelizmente não podem contar nem com um “muito obrigado” do Chefe da Nação e de uma parte de seus seguidores.