Jornal Rio grande

II Guerra Mundial: o que Rio Grande teve a ver com a famosa Batalha do Rio da Prata?

  • Ique de la Rocha
  • 13/12/20 as 10:37

 

Neste domingo, 13 de dezembro, faz 81 anos a Batalha do Rio da Prata que, inclusive, foi transformada em filme pelos ingleses e teve o ator Cristopher Lee como uma de suas estrelas. Na ocasião do confronto, em 1939, o poderoso encouraçado alemão Admiral Graf Spee, que estava colocando a pique diversos navios mercantes no Oceano Atlântico, inclusive na costa brasileira, foi cercado por três navios ingleses e não conseguiu sair de Montevidéu, onde afundou.

Na edição de março/abril de 1996, o jornalista Daoiz de la Rocha, no jornal Soamar, da Sociedade Amigos da Marinha do Rio Grande, apresentou uma matéria com o título acima, onde em várias paginas aborda fatos que relacionam nossa cidade àquele confronto que ficou marcado na história da II Guerra Mundial. Destaque para o trecho em que escreveu o seguinte: “Fato agora revelado permite que Rio Grande encontre, também, um lugarzinho na história daquela ação de guerra”. Ele referia-se ao artigo do brigadeiro reformado A. C. Parreiras Horta, um dos veteranos da FAB (Força Aérea Brasileira), que na Revista do Clube Naval (nº 229, de 1996) publicou o seguinte: “Nos primeiros meses da II Guerra Mundial, precisamente em dezembro de 1939, participamos, bem como vários colegas, sem saber, de uma bem montada ação de contrainformação”.

Parreiras Horta cita no artigo o capitão-de-corveta aviador naval Luiz Leal Netto dos Reis, que na FAB teve destacada atuação em seus primórdios, e que comandava a Base de Aviação Naval do Rio Grande do Sul, no início da guerra, quando se deu a Batalha do Rio da Prata. Essa Base evidentemente situava-se aqui, na cidade do Rio Grande, onde também havia um escritório da marinha americana no edifício da Câmara de Comércio.

O brigadeiro Parreiras Horta contou, no artigo: “Sabíamos que o comandante da Base era admirador dos alemães. E que devido as boas relações que mantinha com o cônsul da Alemanha, era certo que as minhas palavras chegariam até ele. Desinformação, contrainformação, bem plantadas, sem dúvida funcionam”.  Conforme Daoiz de la Rocha no jornal Soamar, “partiu do Rio Grande a contrainformação que levou o comandante Hans Langsdorff (do Graf Spee) a desistir de novo confronto e decidir pelo afundamento do navio”.

Foguetes alertavam para chegada de informações sobre a guerra

No Rio Grande as informações sobre a II Guerra Mundial eram divulgadas por afixação de notícias na Tabacaria Lages, na época situada entre as ruas Andradas e Zalony, onde foi um estabelecimento bancários nos anos de 1970 e atualmente sedia uma empresa de planos de saúde.

Segundo contou a Daoiz de la Rocha o proprietário da tabacaria, Ernani Lages, as notícias eram telegrafadas pela agência de notícias United Press e lhe chegavam pelo telefone. “Quem se encontrasse  pela zona central, sem dispor dos receptores de rádios portáteis, que não existiam, escutava os foguetes que Lages fazia espoucar e se dirigia para a frente de sua tabacaria, quando podia tomar conhecimento das notícias”.

O Exeter e seu comandante ficaram cinco dias no Rio Grande

Ainda no jornal Soamar, de la Rocha conta que um dos navios que perseguiu o Graf Spee, o encouraçado inglês Exeter, esteve cinco dias no porto do Rio Grande e seu comandante era Henry Harwood. Isto aconteceu pouco mais de um ano antes da Batalha do Rio da Prata. Em 1936 ele foi designado comandante da Zona da América do Sul na Marinha Real e nessa condição esteve aqui.

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O comandante inglês Henry Harwood

O Exeter entrou na bacia do Porto Novo dia 5 de agosto de 1938 e aqui permaneceu durante “cinco dias festivos”. Os 616 tripulantes movimentaram o comércio local. Foram realizados eventos sociais, esportivos, jantares elegantes e bailes. A banda musical do navio proporcionou apresentações na praça Xavier Ferreira e, no dia 8, aconteceu uma recepção no navio inglês para autoridades, corpo consular e integrantes da alta sociedade.

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O encouraçado Exeter, da Marinha Britânica, um dos perseguidores do Graf Spee

Ingleses e alemães

Interessante registrar que, em 1938, as colônias inglesas e alemãs desta cidade eram integradas por fortes comerciantes, sendo muitos do ramo da navegação, e que desfrutavam de invejável prestígio na comunidade. Os alemães tinham o Club Germânia, que depois passou a chamar-se Sociedade Cruzeiro do Sul, hoje um prédio que só tem a fachada na esquina das ruas Benjamin Constant com a Conde de Porto Alegre. Os ingleses frequentavam o Albion Club, que situava-se na rua Silva Paes, quase esquina Andrade Neves, onde hoje encontra-se uma garagem coletiva.

Curiosa foi a recepção feita pela sociedade local ao comandante Henry Harwood. O coquetel aconteceu no Albion Club e o jantar, oferecido logo em seguida, foi realizado no Club Germânia, com decoração de Elisabeth Nicckele Bromberg.

Ao deixar Rio Grande, Harwood prosseguiu suas atividades da carreira, que tiveram como ponto culminante a Batalha do Rio da Prata, dia 13 de dezembro de 1939, quando enfrentou, juntamente com mais dois navios ingleses, o poderoso Graf Spee.

Cabe destacar, ainda, que o Ajax, também participante da Batalha do Rio da Prata, chegou a anunciar, com bastante antecedência, uma visita ao porto do Rio Grande dia 6 de setembro, mas dia 1º de setembro Hitler invadiu a Polônia e a visita foi suspensa.

 

Graf Spee foi o terror dos mares do sul

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A poucos dias do início da Segunda Guerra Mundial, o capitão do encouraçado alemão Admiral Graf Spee, Hans Langsdorff, recebera ordens de seguir para o Atlântico Sul. Sua missão: em caso de guerra, atacar navios mercantes com bandeira da Inglaterra a fim de atrair forças da Marinha inglesa para a região, afastando-as da Europa. Após Londres e Paris declararem guerra à Alemanha, em decorrência da invasão da Polônia, Langsdorff recebeu, em fins de setembro de 1939, a ordem para dar início à sua tarefa.

Até início de dezembro daquele ano, o Graf Spee atacara e pusera a pique nove navios, inclusive no litoral brasileiro. Sua área de ação preferida era a foz do Rio da Prata, devido ao tráfego de cargueiros com carne e cereais dos portos locais para a Europa.

O capitão Hans Langsdorff, marinheiro experiente, utilizava táticas de pirataria para confundir o inimigo. Entre estas técnicas, estava a modificação da aparência do navio, com falsas placas de madeira e lonas, criando estruturas diferentes das de um navio de guerra. A pintura de nomes e utlização de bandeiras confundiam os navios comerciais, tomando-o como um navio mercante.

As perdas não ficaram sem reação da Inglaterra. A Marinha Britânica, destacou para o Atlântico Sul a Força de Caça G, com a finalidade de proteger os navios que operavam, principalmente, na região do rio da Prata, local que era responsável por 40% dos produtos primários embarcados ao Reino Unido. Esta força era composta por dois cruzadores pesados (Cumberland e o Exeter) e dois cruzadores leves (Achilles e o Ajax). Esta força-tarefa, seria chefiada pelo comodoro inglês Henry Harwood, tendo como navio-capitânia o HMS Exeter, e como base Port Stanley, nas ilhas Malvinas.

 

A Batalha do Rio da Prata

De acordo com relatório da Marinha alemã, eram 5h52 da manhã de 13 de dezembro quando do Graf Spee avistaram-se três navios de guerra inimigos. Por ter realizado um pouso forçado na véspera e carecer de reparos, o hidroavião de bordo do encouraçado não pôde ser usado para fazer reconhecimento da frota que se aproximava. À distância, o capitão Langsdorff avaliou tratar-se de um cruzador e dois contratorpedeiros (destroyers) e decidiu atacá-los imediatamente. O comandante enganara-se.

Na verdade, eram três cruzadores ingleses (Exeter, Ajax e Achilles) enviados para proteger as rotas marítimas a partir do Rio da Prata. O trio já esperava encontrar o Graf Spee na região e, ao encontrá-lo, igualmente partiu para o combate.

Às 6h10, Langsdorff deu-se conta de seu erro de avaliação, mas a batalha já estava para começar. Os cruzadores Ajax e Achilles afastaram-se do Exeter, um para cada lado, deixando o Graf Spee no meio. Às 6h17, o encouraçado alemão abriu fogo contra o Exeter, dando início ao confronto. Devido à superioridade inimiga, Langsdorff era obrigado a mudar seu alvo de navio para navio. Após duas horas de tiroteio, o Exeter sofrera sérios danos e afastou-se do combate.

Comandante poupou a tripulação e se suicidou

Pouco antes, porém, às 7h40, o Graf Spee também já começara a rumar para Montevidéu. Com sua embarcação avariada, o capitão esperava abrigar-se na capital uruguaia, aproveitando-se da condição de porto neutro. No caminho, ainda trocou tiros com seus perseguidores.

Pressionado por Londres, o governo do Uruguai concedeu permissão para o vaso de guerra alemão permanecer apenas 48 horas em seu território, a fim de realizar seus reparos. O tempo, porém, era pouco demais para o conserto dos danos na cozinha, no gerador de água potável e, sobretudo, no sistema de limpeza de óleo.

E com estes problemas não seria possível encarar uma longa viagem por mar aberto. Além disso, boa parte da munição já estava gasta e a imprensa uruguaia noticiava que mais navios de guerra ingleses haviam chegado ao Rio da Prata. Langsdorff não quis arriscar a vida de seus quase mil marinheiros, nem que o encouraçado fosse capturado pelo inimigo. Após deixar Montevidéu no dia 17 de dezembro de 1939, o capitão deu ordem de abandonar o navio e ordenou sua explosão. Três dias mais tarde, Langsdorff se suicidou em um hotel de Buenos Aires.

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O Graf Spee nos seus últimos momentos

Além de pesquisa local, o texto tem informações do site da revista Deutsche Welle e da Wikipedia