Jornal Rio grande

Se temos um inimigo, é a Covid-19

  • Elis Radmann
  • 15/12/20 as 1:53

 

Para a maioria dos eleitores gaúchos, “não era para ter eleição esse ano”. Essa era a pronta resposta nas pesquisas de opinião, no momento em que o Supremo Tribunal Federal adiou a data das eleições municipais. 

Antes dessa decisão, a FAMURS (Federação das Associações de Municípios do RS) e as Associações Regionais de Municípios se manifestaram contra a realização das eleições municipais em 2020. Em um documento enviado ao Congresso Nacional, pontuaram todos os riscos sanitários, indicando que muitos países democráticos transferiram seus processos eletivos. 

A Câmara dos Deputados avaliou o tema e decidiu que as eleições seriam realizadas em 2020. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) fez as adequações legais e determinou que os atos de propaganda eleitoral não poderiam ser limitados por decretos municipais nem pela Justiça Eleitoral. Só haveriam decretos de restrição embasados por parecer técnico, emitidos por autoridades sanitárias estaduais ou nacionais.

A eleição criou a sensação de que tudo estava se normalizando, os candidatos saíram às ruas e a população também. A fiscalização diminuiu e não houve decretos restritivos. A eleição mal terminou e ampliou-se o número de contaminados em todo o país, fazendo com que os gestores públicos retomassem de forma sistemática os decretos restritivos e o RS têm o seu primeiro momento de bandeiras pretas.

Pronto, a tempestade perfeita está se formando! O setor produtivo está cada vez mais indignado, pois já vem “pagando” a conta desde o início da pandemia. A população se preocupa, pois é cada vez mais comum ter um familiar ou conhecido contaminado e ninguém quer perder alguém para a Covid. E a mídia passa a retratar gráficos que mostram uma “possível” segunda onda e a saturação de leitos em várias cidades.

Nesse difícil e temeroso cenário de preocupação e aumento da ansiedade, estamos todos buscando um “culpado”. A população acredita que a culpa é das eleições, em especial, dos candidatos que a pouco estavam nas ruas se aglomerando e permitindo a aglomeração. Os empresários dizem que o problema está no número reduzido de leitos e na fragilidade das estruturas de saúde e o poder público sinaliza que a disseminação do vírus se deu pelo relaxamento do distanciamento social.

O resultado desses sentimentos contraditórios e negativos aparecem nos índices de intolerância capturados pelas pesquisas de opinião ou podem ser observados das redes sociais e nos grupos de Whats. A intolerância tende a crescer, pois é motivada e alimentada pelos estrategistas, ou até mesmo pelos “oportunistas políticos” que têm interesses reais na permanente polarização, no sentimento de disputa. Inclusive, há influenciadores digitais e analistas políticos que vivem economicamente dessa disputa.

Por mais que cada um possa apontar erros dos gestores públicos, ineficiências do Estado ou ausências de políticas de saúde preventiva, não é hora de gastarmos tempo achando “um culpado”. Temos que parar de procurar um inimigo e ter a consciência de que esse “marketing de guerra” que mobiliza as redes sociais não faz bem a ninguém. O medo, a preocupação, a diminuição da autoestima e a ansiedade estão prejudicando a todos. 

Temos muitos propósitos que precisam ser buscados com racionalidade, entendimento e com diálogo e respeito. Precisamos reconectar os elos de integração e buscar as saídas para que o trabalho flua, enquanto os esforços sejam somados para que a vacina chegue.

 

Elis Radmann é cientista social e política pela UFPel e fundadora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião