Jornal Rio grande

Entrevista: Ronaldo Morgado Segundo

  • Ique de la Rocha (ique@jornalriogrande.com)
  • 15/12/20 as 10:33

"O legal é instigar a mente das pessoas para que procurem a história da cidade"

 

Nascido no Rio Grande, Ronaldo Morgado Segundo, 48 anos, já gostava de História desde os tempos em que morava no Rio de Janeiro, ainda pequeno, para onde cedo se mudou. Lá, obviamente, ele conheceu o passado da Cidade Maravilhosa. Alguns anos depois a família voltou para o Rio Grande do Sul. Primeiro ele morou em Pelotas, "que sempre foi uma fonte de inspiração para mim com seus casarões belíssimos". Depois veio para Rio Grande. Lembra que começou a estudar com Simone Monteiro que era presidente do Museu da Cidade. A esse respeito ele observa: “Visitei o museu e não gostei muito. Pareceu um museu mais de famílias da cidade”. Por volta de 1992 ele conheceu o responsável pelo Núcleo de Arqueologia do Centro Municipal de Cultura, Érico Costa, e chegou até a pensar em cursar Arqueologia, mas não havia esse curso na cidade. Como também estava de olho no mercado de trabalho, decidiu abandonar o curso de História e cursar Informática, mas não se afastou totalmente. Lia os livros de seu pai, que tratavam principalmente da história local, da região e do Rio Grande do Sul.

Em 2014, Morgado Segundo fez um comentário no grupo “Rio Grande Atento”. Ele não lembra o assunto, mas que fez relação com Rio Grande de um fato histórico acontecido em Porto Alegre. A partir dali postava alguma coisa “por brincadeira”, até que decidiu criar um grupo voltado para a história do município. “Me juntei com pessoas que tinham conhecimento, mesmo discordando de alguns, e o conhecimento deles deu suporte para as minhas pesquisas. Consegui muitas fotos, fiz um histórico para cada uma delas e surgiu o Fatos e Coisas de Antanho no Facebook. Ele justifica que o nome é dedicado ao jornalista Daoiz de la Rocha, proprietário do jornal Rio Grande, que deu continuidade à coluna durante muitos anos. No início achei qu e não ia passar de 400 seguidores e hoje temos 34.600 seguidores. Quando criei, me atirei de cabeça na história do Rio Grande e foi muito válida a ajuda de Gianne Attalah, da Fototeca Municipal ”.

Ronaldo Segundo, que está cursando História e revela ser admirador do jornalista Eduardo Bueno, administra o grupo no facebook juntamente com sua namorada, Rosana Joy, que é seu “braço direito” nessa bela e importante atividade. Eles dizem que o Fatos e Coisas exige uma dedicação permanente, “o dia inteiro. Vigiamos praticamente nas 24 horas do dia”.

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Ronaldo Morgado Segundo e Rosana Joy, os administradores da página

 

O Fatos e Coisas de Antanho teve uma aceitação rápida dos seguidores?

O grande diferencial do Fatos e Coisas de Antanho é que está proibido falar em política. O pessoal está cheio dessa discussão sobre política e se encontram ali. Em menos de um ano o grupo tinha mais de mil pessoas. Eu ficava assustado ao ver entrarem entre 100 e 120 pessoas por dia. Hoje tem um crescimento em torno de 8% ao mês. Eu quase não publico mais nada. Só faço intervenções pontuais e no último mês o crescimento foi de 20%. Hoje praticamente somos só administradores do grupo.

Como é o acervo de vocês?

Eu trabalhei como professor de informática. Era professor entre aspas, porque quem dava aula eram os computadores e sobrava tempo para pesquisar.  Só no meu acervo eram cerca de 16 mil fotos, ganhei seis fotos inéditas do Willy Cesar (historiador, falecido) e tenho um acervo maravilhoso, completo, em torno de oito mil fotos, do site Papareia, que a administradora Maria Amélia Marasciúlo, mandou para mim. O acervo do Papareia é uma das minhas principais fontes de pesquisa e teve uma importância muito grande na criação de nosso grupo.

O que achas de mais legal nesse teu trabalho?

O legal é instigar a mente das pessoas para que procurem a memória do Rio Grande e, quem sabe, mudar este comportamento de não preservarmos nosso patrimônio. Por isso dizem que somos a cidade do “já teve”. Deixaram cair o Cassino dos Mestres na rua 2 de Novembro. Pelotas e São José do Norte tem plano de restauração do patrimônio histórico e aqui não tem. Também mexe comigo quando vejo postagens em que as pessoas não se veem há muitos anos e se encontram. Gosto muito disso: as pessoas espalhadas por todo o Brasil ou pelo mundo e, de repente, nosso grupo aproxima amigos de infância, de adolescência. Este é o principal motivo de continuar meu trabalho no Facebook e agora estamos, também, no Instagram. Essa energia é o motor do Fatos e Coisas de Antanho. Faz com que a gente mantenha ele e é uma satisfação muito grande termos o maior grupo de história da cidade.

O Fatos e Coisas tem muitos seguidores no exterior?

Temos gente da Ásia, do Oriente Médio, praticamente de toda a Europa, sendo que deste o maior número de acessos vem da Inglaterra. Tem gaúcho espalhado pelo mundo todo. Entra muita gente de fora e boa parte é de riograndinos que não moram mais na cidade. Temos pessoas da India, Japão, Arábia Saudita, Israel e Sumatra...

O que teus seguidores mais gostam de abordar ou de pesquisar no Fatos e Coisas de Antanho?

Eles dão muita importância para os antigos clubes sociais da cidade, como Caixeiral, Saca-Rolhas e Braço é Braço, e para os cinemas, principalmente o 7 de Setembro, Glória e Carlos Gomes. Também falam no Politheama, de vez em quando.

Com tanto material e conhecimento cada vez maior das nossas coisas pensas em editar algum livro, futuramente?

Eventualmente vem a ideia. Penso na história do Rio Grande, mas contada pelos moradores. Tem gente que viu Getúlio Vargas pessoalmente, apertou a mão dele. Alguns depoimentos são até emocionantes. A gente não percebe, mas o que fazemos hoje pode ser história daqui há alguns anos. E precisamos preservar nossa história, nosso passado, que muito nos orgulha e mexe com os sentimentos das pessoas.