Jornal Rio grande

Na pandemia, a volta do futebol só preserva os campeonatos

  • Jorge Hohmann
  • 19/12/20 as 10:56

 

Lá pelo final de setembro, o Flamengo ainda respirava na Libertadores e tinha que deslocar-se até o Equador para enfrentar o Barcelona de Guayaquil. Naquela ocasião, já estava claro que havia um surto descontrolado de Covid no elenco do Flamengo, reunido por uma semana no Equador. Enquanto autoridades locais ameaçavam vetar  Barcelona x Flamengo (numa terça feira), moviam-se peças nos bastidores para que o jogo acontecesse, sob a pressão de um regulamento da Libertadores que ameaça punir um lado e outro com WO, mas é moldado para tornar o adiamento algo fora de cogitação.

Ao retornar do Equador, o Flamengo teria o Palmeiras pela frente no domingo seguinte, valendo pelo Brasileirão. O presidente do Flamengo, que junto com o presidente da nação bagunçaram e rasgaram os contratos existentes de direitos de transmissão de jogos pela TV, pressionou para que esse jogo fosse transferido.

Parecia ter feito um trato com o vírus para que só naquele jogo ele não se espalhasse pelos seus jogadores ainda saudáveis do elenco. Mas queria o jogo na metade da semana. Seria algo como estas hilárias medidas de proteção, resultantes de reuniões subterrâneas entre empresários e poderes públicos para tratar de flexibiliza$$ões, e cuja participação do último é de apenas e tão somente assinar o decreto e mandar seus munícipes para o matadouro. As medidas mais “duras” (é de perder as calças de tanto rir), acertadas numa sexta, só valem a partir da terça da outra semana. Também devem ter combinado com o Corona para não atacar ninguém de sábado até segunda. E o Flamengo clamava pela transferência em nome da preservação dos seus atletas. O Palmeiras, nem aí com a iminente contaminação dos seus, queria o jogo a qualquer custo. Foi para a justiça. Mas é chover no molhado recorrer-se à prática do bom senso quando existe um regulamento moldado para evitar adiamento de jogos, ainda que se recorra a jogadores sub-20 ou sub-17.

Mudam personagens e linhas argumentativas ao sabor das conveniências, mas fica claro o que norteia o futebol atual: a premissa não é proteger atletas e seus familiares, mas os campeonatos. Tudo pelo grande acordo segundo o qual salvar compromissos comerciais vêm antes de tudo. Os riscos, o comprometimento da qualidade do jogo, do equilíbrio do torneio e até do bom senso são secundários. Neste ponto, o futebol é mais uma das tantas indústrias em sua guerra de sobrevivência, legítima até. A questão é demarcar os limites do bom-senso. Mas, exigir bom-senso  num País que despencou para o 84º lugar no Indice de Desenvo lvimento Humano medido entre todas as nações, é o mesmo que mergulhar num vulcão e sair louco de frio.