Jornal Rio grande

Entrevista: Alexandre Lindenmeyer, prefeito do Rio Grande (gestões 2013/2016-2017/2020)

  • Ique de la Rocha (ique@jornalriogrande.com)
  • 20/12/20 as 11:44

“Não creio que um governo tenha feito tanto como o nosso”

 

Em entrevista exclusiva ao Jornal Rio Grande, Alexandre Duarte Lindenmeyer, eleito prefeito do Rio Grande pela primeira vez em 2012 e reeleito em 2016, faz uma análise sobre seu período de dois mandatos consecutivos à frente do Executivo Municipal.

Lindemeyer fala das suas ações e também do que gostaria de ter realizado e não conseguiu. Revela, ainda, o que vai fazer daqui para a frente e manifesta sua crença no desenvolvimento do município. “Rio Grande vale a pena”, salienta ele que, além de ter se tornado um advogado de prestígio, mostrou ser um vitorioso na política. Militando pelo Partido dos Trabalhadores (PT), elegeu-se sempre com expressiva votação para os cargos que disputou: vereador, deputado estadual e prefeito. Confira a entrevista logo abaixo:

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Foto: Prefeitura do Rio Grande

Jornal Rio Grande: Como o senhor avalia o resultado das eleições para a Prefeitura do Rio Grande?

Alexandre Lindenmeyer: Primeiro, a vontade popular é soberana. Lamento que tenhamos tido uma abstenção muito elevada, assim como os votos brancos e nulos, mas foi uma eleição bem disputada e venceu a vontade da maioria, que merece ser respeitada.

 

A que o senhor atribui o fato de Darlene Pereira não ter vencido?

Atribuo a um conjunto de situações. Uma delas, penso que faltou maior comunicação. Fiquei alguns meses sem dar entrevistas nas rádios, escasseou o número de entrevistas e não tínhamos agência de publicidade para viabilizar a informação do que estávamos fazendo. Divulgamos nossas ações nas redes sociais, nas páginas da Prefeitura, mas isso foi insuficiente para contrapor a narrativa de que Rio Grande era uma cidade triste, empobrecida. Não tivemos capacidade de reverter o discurso, muito embora Rio Grande seja o 5º PIB do Rio Grande do Sul e esteja entre os três que menos desempregou, proporcionalmente, em relação a outros municípios. Fizemos um volume de investimentos públicos importantes, que se reflete na melhoria de vida das pessoas. Não com a velocidade que gostaríamos, devido à pandemia, mas muita coisa boa foi realizada. Não creio que um governo tenha feito tanto como o nosso, tanto em obras como em vagas para a educação, ampliação da rede social e da saúde, na estrutura do Procon e da defesa Civil, estrutura de macrodrenagem. Criamos política para os animais, incentivamos o desenvolvimento primário com políticas para o homem do campo, botamos na merenda escolar a agricultura familiar orgânica e a pesca. Penso que perdemos na disputa da narrativa e espero, agora, fazer uma boa transição para quem assume. A população quis mudança e temos de respeitar esse sentimento. Para isso existe o desgaste do Partido dos Trabalhadores, consolidado por várias narrativas, o que também se refletiu no desempenho da Darlene, que foi uma excelente candidata, qualificada, gestora e que conhece o Executivo e o município.

 

A Covid-19 atrapalhou?

Neste caso, as tomadas de decisões, sejam quais foram, nunca agradaram e podemos ver isso em todo o Brasil. Se o prefeito libera as atividades normalmente "é genocida", se tranca "está intentando contra a economia". Foi muito difícil a tomada de decisões neste ano, mas o certo é que estamos tentando passar a pandemia com os menores danos possíveis. É importante conscientizar as pessoas para que cada um faça a sua parte com distanciamento, sem aglomeração. Infelizmente muitas pessoas não estão nem aí e tocam a vida do jeito que querem e a fiscalização se torna insuficiente diante de tanta desobediência.

 

Analistas políticos avaliaram que a população rejeitou, nessas eleições, os candidatos dos partidos mais extremos, de direita ou de esquerda. O senhor concorda?

Concordo. O recado das urnas é nessa linha. Quem cresceu na esquerda foi o PSOL, mas gostaria de fazer algumas observações como, por exemplo, em Caxias do Sul, após 14 anos, a esquerda chegou no segundo turno. Em Porto Alegre também  e, mesmo aqui, em que pese não eleita, na véspera da eleição se divulgava uma diferença de 20 pontos e a diferença foi de 8% para o candidato vencedor. Diferente da eleição anterior, quando fui eleito com 59 mil votos e neste o vencedor foi eleito com menos de 44 mil votos e a Darlene, que não era vereadora, nem deputada estadual, nem prefeita, era uma gestora na Prefeitura, fez 36 mil votos. Não é pouca coisa, mas concordo que os candidatos de centro-direita foram a maioria entre os eleitos para as prefeituras e câmaras de vereadores.

 

O senhor não acha que o PT, em nível nacional, precisa fazer uma autocrítica mais profunda e se “oxigenar” para o futuro?

O ápice do desgaste foi em 2016 com a Lava-Jato. Vários partidos foram indiciados, mas o discurso pregado no país foi de que o PT era o culpado de tudo e, ao mesmo tempo, tudo o que havia sido feito de bom caiu no esquecimento. Quando se fala em ponte sobre o Guaíba, parque eólico, duplicação da BR-116 , energia eólica, construção de moradias, na ampliação das universidades fazem de conta que essas políticas não existiram. Falo também das obras e dos recursos que deixaremos para o próximo governo. Boa parte teve origem nos governos do Lula e da Dilma e vamos deixar para o próximo prefeito, em projetos já elaborados e possibilidade de início das obras, R$ 111 milhões em Rio Grande, sem contar o que está executado. Isso não é pouca coisa. O próximo governo já começa janeiro, fevereiro e março inaugurando escolas, que não foram concluídas em nossa gestão por causa da pandemia. Tem muita coisa boa do PT.

 

Como o senhor vai entregar a Prefeitura para o novo prefeito?

Vivemos um período bem diferente do que se vivia no tempo do pleno emprego. A economia do Brasil hoje vive outra realidade. Nós, neste ano, fizemos um movimento de suspender o pagamento da cota patronal previdenciária, porque a queda de arrecadação prevista pela pandemia reduziu nosso orçamento em 58 milhões de reais e, no transcorrer do ano, recebemos pouco mais de R$ 27 milhões de compensação para minimizar a queda. A Câmara de Vereadores rejeitou adiar o pagamento dessa cota patronal. Pagamos de março até agosto e agora estou conversando com o prefeito eleito sobre a possibilidade de ser aprovada a postergação de setembro a dezembro e o 13º salário, porque ano que vem haverá um incremento no índice de participação do ICMS para nosso município, passando de 1,61 para 1,76. Estamos melhorando e tem a receita dos royalties do petróleo, que este ano foi retomado. Ainda não sei em que cenário vamos fazer o fechamento das contas. Estamos nos esforçando para pagar todas as contas, inclusive o 13º do funcionalismo, os salários de dezembro e fornecedores. A certidão da previdência e os precatórios estão em dia, mas estamos negociando com o próximo governo. Se houver déficit, não acredito que será considerável e, se tiver a aprovação do projeto que reenviamos para a Câmara, de setembro a dezembro e o 13º, será a maneira de fecharmos as contas. Noventa por cento das prefeituras que tem fundo tiveram aprovação da cota patronal.

 

Como está sendo feita a transição?

Para mim está muito bem. Todas as secretarias estão recebendo a comissão nomeada pelo prefeito eleito Fábio Branco. Tive duas reuniões com ele e com Janir Branco. A meu convite o novo prefeito está participando de reuniões do GGI (Gabinete de Gestão Integrada), da comissão técnica da Saúde e deve ter outras reuniões até o final do ano.

 

Alguns críticos dizem que o senhor comprometeu o Município com os vários financiamentos que fez.

Se todos os financiamentos forem confirmados, representam apenas 3% do orçamento do município. Por que digo isso? Tem o Pró-Moradia, que envolve a Dom Bosquinho. São 79 novos imóveis que estão sendo analisados e dependem de aprovação do ministério e da Caixa Federal. O projeto Avançar, que envolve a qualificação da Roberto Socoowski e o anel viário da Junção ao Pórtico. São mais R$ 30 milhões, que também estão em análise. Se o futuro governo cancelar o projeto é um direito que tem.

 

“As melhoras nos indicadores do IDEB são um legado que fica”

 

Quais as ações de seu governo que considera as mais importantes?

Batemos sucessivamente os índices de desenvolvimento da educação no município. Todos os indicadores do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) vêm melhorando e é um legado que fica. Nossa escola pública tem excelente qualidade. Na saúde fizemos investimentos importantes, que têm qualificado o atendimento, e registramos um volume de atendimentos que não é pequeno. Em agosto o posto do Parque Marinha recebeu mais de 15 mil pessoas, fora as outras unidades de saúde e as UPAs, do Cassino e da Junção. Em infraestrutura beneficiamos 98 ruas até dois meses atrás. Agora concluímos a República Dominicana. Fizemos 30 quilômetros de ciclovias, mais 59 quilômetros de vias pavimentadas e, só de projetos em curso, tem mais 30 quilômetros de ciclovia, além de mais oito escolas de educação infantil em construção, sendo que duas quase prontas para inaugurar agora. Poderia dizer muito mais. Em primeira mão: a Cidade Digital está toda implantada. Já estamos com Wi-Fi funcionando no Rincão da Cebola, praças Tamandaré, Xavier Ferreira e Saraiva e vamos interligar os postos aos equipamentos públicos. Vamos chegar a 180 pontos. O próximo governo vai poder trabalhar com os postos interligados, o controle da iluminação pública de forma remota. Investimos cerca de R$ 7 milhões em equipamentos e qualificação para a área de T.I. (Tecnologia da Informação). Nossa estrutura instalada é cinco vezes mais que a capacidade de Pelotas.

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Alunos de escolas municipais visitando o gabinete do prefeito. Foto: Facebook

Quais as obras que o senhor pretendia fazer em seu governo e não conseguiu concluir?

Muita coisa. O próprio ginásio da praça Saraiva, começou agora a obra do telhado. Foi uma dificuldade que tivemos. O Centro Municipal de Cultura e o Caixeiral: temos uma compensação pactuada, que envolve recurso importante para recuperar esses equipamentos e vou passar para o novo governo. E tem obras em curso, que estão sendo ou foram licitadas. O bairro Buchholz, o Bolaxa, o ABC IX, Parque Guanabara, construção da avenida Brasil na Querência. Nesta última a pavimentação vai até o Stella Maris e retorna pela avenida Atlântica. Temos obras pendentes na avenida do Riacho (Cassino), ciclovias, as escolas que estão em curso, o Centro de Iniciação ao Esporte no Parque Marinha. No portal da Prefeitura tem o mapa com as obras de nossa iniciativa.

 

Até que ponto o fato de o PT não ter sido ligado aos governos estadual e federal prejudicou sua gestão?

Para não me estender vou citar duas situações muito claras como exemplos: a gestão da Santa Casa. Uma pauta que, infelizmente, foi politizada e dificultada ao máximo. Teve atraso nos repasses que quebrava qualquer planejamento; O próprio binário da Junção já poderia ter sido resolvido, mas faz parte...

 

O transporte coletivo foi uma de suas bandeiras. Em sua gestão, o sistema melhorou?

Não. Criamos algumas situações importantes, como o passe livre a partir dos 60 anos e itinerários diretos. Tentamos cinco licitações, duas foram discutidas na Justiça e na última, que teve aprovação da comissão de licitação, houve questionamento do Tribunal de Contas e está em análise. Evidente que, nessa situação [de indecisão jurídica], quem ganha a licitação e está com permissão do serviço acaba não renovando a frota, nem melhora os serviços. E tem os aplicativos, que provocaram a diminuição do movimento de passageiros nos ônibus. Nosso transporte coletivo movimentava 52 mil passageiros/dia e hoje transporta 23 mil passageiros/dia. Isso também impacta no sistema.

 

Um dos fatos positivos de seus governos foram oito anos sem escândalos de corrupção na Prefeitura?

Tem inquéritos tramitando, que são da Prefeitura e vou ficar respondendo. Me incomoda, mas procurei fazer tudo da melhor forma.

 

“Tem muita coisa boa (por vir) e Rio Grande vale a pena”

 

Rio Grande, mais do que nunca, precisa de novos empreendimentos e geração de emprego. Na sua opinião, qual a saída para Rio Grande se desenvolver?

Além da área de logística, do porto, da retroárea e da indústria, mencionaria a construção civil, através do programa Minha Casa, Minha Vida, cujos valores tiveram uma redução equiparando-se a Pelotas. Não por acaso vemos a construção do Bragança e de casas na Junção, de 58 casas no Cidade de Águeda, 190 apartamentos na Rheingantz e 640 apartamentos na avenida Portugal. Multiplicaram os empreendimentos habitacionais no município. Vemos muitos empreendimentos também no Cassino e a construção é uma fonte importante de geração de emprego e renda.

 

A construção de um porto no Litoral Norte é motivo de preocupação?

Penso que deve haver um monitoramento. Já vínhamos perdendo cargas conteinerizadas para Santa Catarina e um porto no Litoral Norte pode preocupar nisso. Acho complexo o projeto em Arroio do Sal. Tem um grande impacto ambiental, mas se acontecer, é um investimento privado e vai gerar concorrência para nosso porto. Tem que acompanhar.

 

O senhor lutou pelo Polo Naval ao lado dos trabalhadores. Como analisa a falta de mais apoio da comunidade nessa luta e as possibilidades do Polo ressurgir?

Naquele determinado momento, com relação à construção das plataformas P-75 e P-77, fizemos uma luta quase que solitária. Em algum momento a Câmara de Comércio apoiou, com o presidente Torquato Pontes, mas não acreditaram. Se pegar a fala do representante da Abimaq (Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas), Rio Grande ganhou 11.500 postos de trabalho conseguindo alguns módulos das plataformas. Acabou que grande parte mandaram para a China, mas 1.500 empregos significavam R$ 4 milhões/mês que circulavam na cidade. Disse a Abimaq que as plataformas foram uma possibilidade para muitas empresas do Brasil. Foi um ganho em cadeia para toda a indústria brasileira. Agora estão retomando e espero que o ERG 1 (Estaleiro Rio Grande) volte. Vejo que a Marinha do Brasil é uma grande oportunidade para a Ecovix. A construção de um navio antártico será muito importante, caso vençam a licitação com uma parceira chilena.  A cabotagem também é uma alternativa. Acho que a indústria naval volta, tanto o EBR, que está em atividade em São José do Norte, como a Ecovix, mas nem perto das projeções do passado. De qualquer forma, temos uma estrutura instalada esperando novas oportunidades, como a própria licitação do navio antártico em curso. Tem muita coisa boa e Rio Grande vale a pena.

 

E os projetos da energia eólica e da termelétrica, podem prosperar?

No caso da termelétrica existe um recurso tramitando na Aneel (agência reguladora do setor de energia). Não encerrou, embora a disposição da Aneel de repassar o projeto para outros. Mas tem possibilidade. Uma empresa da Espanha comprou o projeto e está recorrendo. Para Rio Grande foi uma grande perda e, se acontecer um novo leilão, dificilmente o projeto fica no Rio Grande do Sul. Mas ainda temos esperança do recurso. Quanto aos parques eólicos, o do Senandes está com projeto de ampliação, atualmente em análise. Serão mais quinhentos ou seiscentos milhões de reais em investimentos.

 

O que o senhor gostaria de ter realizado que não conseguiu?

Ganhar as eleições com a Darlene, ter construído todas as obras em curso, que não tiveram a fluidez que gostaríamos, especialmente neste ano de pandemia, que atrapalhou. Senão, boa parte delas estaria concluída e outras em andamento. Na Vila Maria, por exemplo, vai começar em seguida a obra na Alberto de Sá, que já deveria ter iniciado. Mas é preciso enxergar que Rio Grande não está isolado no contexto. Temos uma crise econômica, social e sanitária no país. O índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil caiu e estamos no mesmo contexto, mas, independente das dificuldades, fico satisfeito. Não concluímos tudo o que gostaríamos, mas muita coisa boa foi feita.

 

Passadas as eleições e terminado seu mandato, qual o futuro de Alexandre Lindenmeyer?

Na política, além da militância, fui vereador, deputado estadual e prefeito com direito à reeleição. Vou fazer 57 anos e tudo valeu a pena, mas também perdi muito individualmente. A família sofre muito, porque não é fácil. Hoje em dia ser gestor público é estar vulnerável a qualquer coisa. Em janeiro vou ficar descansando, cuidar do pátio, das flores, das frutíferas, do jardim. Vou ler, dormir, cozinhar, curtir mais a Eunice [esposa] e os filhos. Sempre exerci a advocacia e agora vou me reciclar, porque muita coisa mudou nesses anos todos, como o Código Civil e os direitos previdenciários, e gradativamente voltar à profissão.