Jornal Rio grande

O Mercado Público

  • Luiz Henrique Torres
  • 27/12/20 as 10:11

 

A construção do atual Mercado Público é uma das histórias das difíceis condições com que se edificaram os espaços públicos essenciais para a manutenção da reprodução diária de uma sociedade. Pelo Mercado Público transitaram mercadorias variadas, alimentos essenciais para a população, dinheiro que alimentou o capitalismo comercial e gerou empregos, impostos que foram relevantes no orçamento da municipalidade e práticas culturais de uma sociedade lusitana e escravista. Um escritor ressaltou a importância deste espaço: “Deus tudo dispõe. A cidade do Rio Grande luta com as asperezas do clima de cidade marítima. Soprada, às vezes, por ventos fortes, tem invernos rigorosos. Para contrabalançar e oferecer a sua laboriosa população muita saúde tem um mercado rico em peixes frescos, verduras variadas, abundantíssimas e igualmente muita fruta. Há gente que vai ao Rio Grande para comer na gruta Baiana o peixe otimamente preparado. No mercado existem muitíssimos restaurantes. Ali se como bem e barato. Há peixe todo o dia, como verduras ao gosto de cada um” (Fortunato Pimentel, 1943).

A construção do Mercado Público da cidade do Rio Grande foi ordenada em 1841 pelo Dr. Saturnino de Souza Oliveira, Presidente da Província do Rio Grande. Em 1847, este projeto já estava implementado, mas suas dimensões eram pequenas em relação ao Mercado atual. Desde 1847 há referência a obras que deveriam ser realizadas para ampliar o Mercado existente que não comportava o consumo de uma população de 12 mil habitantes no ano de 1852. A ampliação da área do Mercado para os patamares atuais é fruto destas obras iniciadas na primeira metade da década de 1850. Em 6 de setembro de 1853, o relatório municipal destacava que o Mercado Público tornava-se mais acanhado à proporção que a população aumentava: “(...) desta forma, em pouco tempo, ele se tornará insuficiente. Ora, tendo a Câmara de fazer construir um mercado ou banca de peixe, onde este possa ser vendido, com o asseio que exige a civilização de uma das principais cidades da província, atendeu como lhe cumpria a estas duas necessidades. O plano da Câmara é: fazer o mercado do peixe com disposições de ser aproveitado para fazer parte do aumento do mercado atual, quando as circunstâncias imperiosamente o exijam. Para levar a efeito este projeto pede a Câmara autorização para despender 3.000$000” (RELATÓRIO, 1853).

De fato, o valor final dos gastos, quando de sua conclusão em 1863, superaram 113 contos de réis. O Mercado Velho, durante e após a construção do novo Mercado, continuou funcionando na área central até 1888, quando o vazio central ficou livre sendo utilizado pelos tabuleiros dos feirantes temporários. O edifício, de planta retangular, apresentava em cada par de fachadas paralelas, oito e quatorze lojas, num total de quarenta e quatro estando cobertos com abóbodas de arestas em alvenaria portante. Foram realizadas obras no Mercado a partir da década de 1940 e que foram concluídas em 1959, as quais descaracterizaram parte de sua arquitetura original. A parte interna que originalmente tinha a cobertura aberta foi fechada, sendo construídos chalés. O atual estado de degradação física e funcional deste espaço vem exigindo intervenções de maior vulto. A localização do Mercado junto ao Cais do Porto Velho e de frente para a Praça Xavier Ferreira (denominada popularmente no século XIX de Boulevard Rio-Grandense) o insere no centro histórico da cidade e num dos principais espaços públicos da identidade local. 

Um cartão-postal por volta de 1910 possibilita um olhar próximo da arquitetura original do Mercado Público. A fotografia foi realizada do alto da torre da Alfândega, local que foi muito utilizado para fotografias panorâmicas e imagens de postais. No lado direito observa-se embarcações junto ao Porto Velho (Rincão da Cebola); à esquerda as árvores da atual Praça Xavier Ferreira, o prédio do Quartel-General e o antigo prédio da Biblioteca Rio-grandense; ao fundo o hospital da Santa Casa.

n/d

O Mercado Público em 1910. Acervo: Leonardo Barbosa