Jornal Rio grande

Ainda o Mercado Público

  • Ique de la Rocha (ique@jornalriogrande.com)
  • 28/12/20 as 11:54

 

Como sempre, excelente o mais recente artigo do prof. Luiz Henrique Torres, que em suas atividades, inclusive em seu blog e neste site, mantém viva a rica história do nosso Rio Grande e, consequentemente, transmite cultura à população. Aliás, somos privilegiados neste quesito, e muito devemos a ele, porque o nível cultural dos brasileiros está bem abaixo da média. No domingo estava eu numa casa em que a televisão encontrava-se ligada no SBT. Era um quadro do programa do apresentador Celso Portioli, que fazia perguntas sobre “cultura geral” aos participantes. Olha só o tipo de perguntas: qual país abriga o maior número de italianos? Em que país se realiza o GP da Espanha? O comerciante de vinhos vende que tipo de bebida? O pior é que os participantes (sub-celebridades) ainda erraram duas, só não lembro quais eram, mas nessa linha.

Pois no seu mais recente artigo da história do Rio Grande, o prof. Torres abordou o Mercado Municipal que, pela data de sua entrada em funcionamento, a gente constata que aquele local está se encaminhando para completar 175 anos de existência. E está “vivinho da Silva”, embora até hoje não tenha recebido toda a atenção que mereceria das nossas autoridades. Claro que ele já esteve bem pior, mas o que foi feito, em nossa opinião, ainda não passa de “meia sola”. Aliás, um tema que renderia bastante seria sobre as “meia solas” que se veem por aqui. Como quase tudo que é ginásio e estádio de futebol tem sua denominação popularizada no aumentativo, nosso ginásio da Praça Saraiva, cuja construção foi um parto e desde sua inauguração parece que está sempre em reforma, deveria chamar-se “meia solão”.

Lembro do Mercado Municipal desde pequeno. Meu avô já estava lá, comprando carne no açougue do Anselmi, às 7 horas da manhã (dizem que depois das 5h já tinha banca aberta para servir café), e lá retornava ainda umas duas vezes no período matinal: ou para compras ou para conversar com os amigos. Meu pai comprava com frequência na fruteira do Dinarte, que levava as compras em casa, que nem rancho, e ainda resistiu, creio, até o início do ano 2000. A maior parte das bancas eram ocupadas por fruteiras e ainda tinha, na parte externa, junto às docas do peixe, inúmeros comerciantes, que vendiam horti-fruti-granjeiros vindos da Ilha dos Marinheiros, e que eram expostos em imensos balaios.

Comecei a gostar e a frequentar o Mercado no final da década de 1990. Eu escrevia no Agora e admirava o trabalho do então repórter Horácio Gomes, que era “meio furão” na rádio e sempre abordava assuntos populares, como problemas no transporte coletivo, notícias sobre pesca, e me dei conta que ele conseguia esse tipo de matéria porque circulava aonde o povo estava: andava de ônibus, vivia na volta do Mercado e do Hotel Portugal (aliás, antes do saudoso Wilson Branco pensar em ser político, ainda como presidente da Colônia de Pescadores, Horácio, com seu olho clínico, dizia que se ele entrasse na política chegaria a Senador, devido a facilidade de comunicação com o povão. Não chegou a tanto, mas foi vereador, deputado federal e prefeito sempre com expressiva votação). Passei a frequentar aquele local e, de fato, muitas notícias que fiz tomei conhecimento por lá. As coisas que aconteciam na cidade repercutiam no Mercado, sem falar no que se refere à pesca, cebola e interior do município. Isto, inclusive, serve de lição para os estudantes de Jornalismo: frequentarem locais populares que podem ser ótimas fontes.

Se eu fui com interesse profissional, em seguidinha me tornei um dos fãs do Mercado. Fiz amizades rapidamente, com pessoas simples, simpáticas, que não quero citar porque, com certeza, vai escapar alguém e isso é péssimo. Mesmo com deficiências até de atrativos, o local oferece refeições do tipo caseiras muito gostosas e a preços acessíveis. Me chamou atenção no artigo do prof. Torres que ele cita o escritor Fortunato Pimentel, que em 1943 observava: “Há gente que vai ao Rio Grande para comer na Gruta Baiana o peixe otimamente preparado. No mercado existem muitissimos restaurantes. Ali se come bem e barato”. Eu diria a mesma coisa ainda hoje. Se come um ótimo peixe a preço bem acessível, popular, da mesma forma que mocotó, pastéís e até lanches muito gostosos.      

Continuo achando que o Mercado necessita de mais atrativos. O atual governo tentou valorizá-lo, integrando-o à última Festa do Mar, realizada pelo Executivo. Alguns comerciantes, antes da pandemia, estavam colocando música ao vivo nos finais de semana. Foi lá que assisti a uma das mais lindas apresentações da religião afro, quando da vinda do Bará do Mercado de Porto Alegre.

Os supermercados mataram os mercados públicos, mas aonde eles existem, são sempre uma atração turística e três deles estão bem vivos no Rio Grande do Sul: os de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande (ainda tem o de Bagé, que não sei como está). Precisamos ser mais criativos e aproveitar melhor aquela localização privilegiada, que ainda fica ao lado da estação hidroviária para São José do Norte. Fala-se tanto em turismo e, para desenvolvê-lo, nosso Mercado Municipal não pode ficar de fora.