Jornal Rio grande

Nova realidade, novos negócios: a ascensão dos deliveries e do e-commerce em Rio Grande

  • Matheus Magalhães da Silva
  • 28/12/20 as 18:21

 

“Se não fosse pelos aplicativos, não trabalharíamos. Fomos salvos por eles”. Assim se posiciona Luci Mara Torma, proprietária do Marmitex da Sú, serviço que opera nas redes sociais e via WhatsApp oferecendo comida no período do almoço. Todos os dias, as redes onde o restaurante online está presente são agraciadas com um novo cardápio oferecendo possibilidades diversas para os clientes. 

Torma explica que já trabalhava no ramo culinário antes do início da pandemia, mas que a nova realidade a forçou a se integrar a estas novas modalidades online de serviço: “temos que nos reinventar todos os dias”. O novo momento limitou o horário e a oferta. “Hoje, devido a pandemia, trabalhamos só com almoço, e com muita dificuldade perante o preço das mercadorias e embalagem”, revela. Perguntada se está sentindo o aumento vertiginoso dos insumos básicos no Brasil, ela elabora: “sentimos e estamos sentindo. Cada dia o preço das mercadorias aumenta: lucro mínimo, vendas muito poucas, estamos lutando para sobreviver em busca de dias melhores”.

E quando a vida retornar ao normal, Torma revela que deve seguir trabalhando à distância. "Vai demorar muito tempo para nos equilibrar, então seguiremos no delivery até estruturar o negócio novamente”. Ela também traz um dado curioso acerca da desconfiança dos clientes em relação à possibilidade de contaminação dos alimentos: “vamos ser realistas: eu perdi muitos que buscavam e pediam com medo da Covid”. Ela relaciona a queda de pedidos com este medo que ainda persiste dentre as pessoas na cidade. “Ainda temem. Muitos que comiam de fora optaram hoje em fazer a própria comida”, sinaliza.

Em relação ao movimento em seu negócio, Torma revela que a maior saída é para os bairros. Ela conta que não faz uso de serviços de entregas, utilizando o próprio carro para levar os pedidos até os clientes. Quando perguntada acerca dos custos que envolvem utilizar um veículo particular para tal empreitada, ela reflete: “O custo é alto e não só o preço da gasolina: tem também a manutenção do veículo”. Mas então por que escolher tal opção? “Hoje muitos não querem pagar entrega e a crise obriga a dar vantagens, e essa é uma: tele-entrega grátis”, explica.

 

E-commerce se torna opção para comerciantes da cidade

Outra modalidade digital que ganhou enorme força durante a pandemia foi o e-commerce ou comércio digital. Este novo tipo de negócio faz uso de plataformas não-físicas para anunciar e vender produtos oferecendo ao cliente a possibilidade de visitar a loja sem sair de casa. 

“Não vejo nada negativo no e-commerce. Pelo contrário: ele só te ajuda”. Assim define Cristiane Vassão, proprietária da loja online riograndina Casa de Barro: “é o futuro”. Especializada na venda de vasos e artigos de barro em geral, a loja surge, segundo sua idealizadora, como uma forma de suprir uma carência no segmento. Apesar de a ideia ter sempre girado em torno de utilizar o e-commerce, Vassão acabou abrindo um espaço físico para expor os vasos na garagem de sua casa: “Depois de um tempo vendendo somente online, as pessoas queriam olhar”. Ela explica que, no princípio, a grande maioria de seu público usava apenas a modalidade online com entrega. Porém, hoje entende o movimento como 50% de vendas pela internet e 50% de pessoas que vêm comprar in loco na loja.

A proprietária teve larga experiência no comércio antes de se aventurar pelo e-commerce. Após 30 anos trabalhando em contato direto com as pessoas, Vassão entende que a maior diferença se dá nas horas de trabalho e rotina profissional: “online tu ficas mais preso ao negócio, no tradicional fechou as portas e acabou”. Operando no espaço físico das 10h às 20h, o negócio requer três celulares ligados direto para atender a demanda de clientes online. E isso não se restringe apenas aos dias úteis. A loja até mesmo já recebeu interesse de clientes em outros estados do país, mas Vassão revela que, dada a fragilidade das peças, ela optou por não trabalhar com envios via correio ou transportadora. 

Um ponto crucial de divergência do e-commerce para com o comércio tradicional é o custo, tanto de abertura do negócio como de manutenção. O espaço físico, no e-commerce, é opcional enquanto no comércio comum é necessidade de primeira ordem. “No e-commerce, se tiveres bons produtos com uma apresentação para venda, isto basta. No comércio normal, tens um alto custo de um local com boa localização e apresentação ao público”. Há a possibilidade de um custo adicional na figura da impulsão nas redes sociais onde, a partir de uma tarifa, os posts da página comercial são mostrados para mais pessoas. Porém, Vassão ainda considera prematuro este tipo de gasto, apesar de mirar como possibilidade no futuro. 

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A Casa de Barro possui loja física, mas metade de suas vendas é feita pela internet

O casal Peter Barcellos Jorge e Maria Helena Vargas atuava no ramo gráfico desde 2017. Alguns meses atrás eles passaram por um momento difícil envolvendo doença na família. Encontraram como refúgio a culinária. Se descobriram nesta nova área e, desde outubro do ano passado, passaram a alimentar a ideia de abrir uma hamburgueria com a qual trabalhariam aos finais de semana, apenas com entregas, complementando a renda. Entretanto, a gráfica foi uma das vítimas dos fechamentos de março deste ano, por conta da pandemia. Não sendo mais possível manter o negócio, eles resolveram acelerar os planos de abertura do projeto no ramo alimentício. Foi assim que surgiu, em março deste ano, a Pitt Burguer Artesanal. Peter conta sobre um dos motivos que ensejou a aposta na hamburgueria em tempos de crise: "o ramo da gráfica não é tão prioritário. Se as pessoas precisam economizar, elas não consomem esse tipo de produto, enquanto o alimento, a gastronomia, é algo que, mesmo quando a pessoa precisa reduzir, ela acaba consumindo". Para eles, a quarentena impulsionou um projeto como o deles, que trabalha só com delivery, sem acesso do cliente a local físico. "Antes da pandemia a gente já pretendia abrir, porém seria uma coisa muito mais vagarosa do que acabou sendo, porque as pessoas não têm, na nossa região, essa ideia de comprar de um local que elas ainda não conhecem", diz Peter

Se a popularização do delivery foi positiva para impulsionar os negócios nesta época, ela também traz novos desafios. "No início, em termos de vendas, foi muito bom. Mas em seguida se criou uma concorrência muito grande. Hoje em dia o que mais se vê são empresas fazendo delivery. De tempos em tempos surgem novos concorrentes. Muitas dessas pessoas, que eram trabalhadores CLT e com a crise perderam o emprego, nunca foram empresárias, não sabem direito o que estão fazendo: elas simplesmente abrem, arbitram um preço que deduziram, muitas vezes de forma errada. Isso prejudica".

Para Peter, no entanto, o maior desafio tem sido em relação à matéria-prima, e ele prevê ainda mais dificuldades neste aspecto. "Com essa pandemia veio o aumento de tudo, e isso nos maltrata até hoje. Toda vez que a gente vai fazer uma compra, que chama um fornecedor, a gente tem um susto. O problema maior é repassar para o cliente. As embalagens, da primeira vez que compramos, custavam menos da metade do preço atual. A carne, que já estava cara, agora está muito mais. Isopor e sacolas ameaçam faltar. Alguns produtos não se encontram mais: um tipo de bacon não se acha mais, por exemplo... Quando se acha, é preciso fazer um estoque, aí o lucro já vai embora. A gente está tendo uma batalha muito grande em relação à manter a qualidade e o preço: tudo falta."

O casal conta que outra dificuldade é trabalhar de casa. "Isso mistura muito o tempo de serviço e o tempo de casa." A alternativa que Peter propõe é delimitar horários e espaços, separando alguma peça da casa exclusiva para o trabalho e definindo uma jornada de trabalho com horários estabelecidos. Apesar de todos os desafios, eles, que desejam abrir uma loja física com o fim da pandemia, estão otimistas com o futuro do negócio, que atualmente já até emprega dois parentes que perderam o emprego este ano. "A gente acredita que entrega um produto de excelência para o cliente e isso gera muita satisfação. Recebemos muitos elogios e não temos arrependimento algum de ter fechado a gráfica e abraçado 100% a hamburgueria. Todo o valor que entra a gente reinveste. Nossa perspectiva é de crescer bastante", finaliza.

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Peter e Maria Helena, os responsáveis pelo Pitt Burguer Artesanal