Jornal Rio grande

O "novo normal"

  • Jorge Hohmann
  • 30/12/20 as 0:16

 

Nestes tempos em que vemos o País afundar-se no vale das sombras, mais um termo de efeito é lançado na tentativa de sublimar os vários danos que uma nação desnorteada impõe à sua população. É o tal do “novo normal”. Basta piorar num determinado segmento para a esmagadora maioria, transformando o suportável numa tortura (e eu não sabia que quase tudo o que era ruim poderia ficar pior, e de forma recorrente), para que rapidamente uma autoridade ou aliados encostados na “mídia amiga” aparecerem rotulando o ataque ao bem-estar dos brasileiros como o “novo normal”. O futebol está incluído nessa massaroca.

Mão na cara, braços e/ou cotovelaços no pescoço, pisões no tornozelo, joelhada nas costas, afrontamento à arbitragem, simulações bizarras – tudo agora faz parte do “novo normal”.  Aliás, o futebol brasileiro como um todo está dentro do “novo normal”. Na decisão do brasileiro sub-17 a pancadaria correu solta entre os garotos de Athlético-PR e Vasco da Gama quase ao final do jogo. Repito: sub-17. De onde vem o exemplo? Ora, a garotada, ainda movida pelo deslumbre,  mas inexperiente, extravasa a somatização de sensações durante um jogo – invariavelmente de fúria – num  verdadeiro campo de batalha. A raiva os faz esquecer que deveriam entregar aos telespectadores 90 e poucos minutos de jogo, e não em cenas típicas da chinelagem terceiro-mundista. E num Brasil onde o ódio ganha de goleada sobre qualquer outro sentimento saudável, o resultado é botar tudo pra fora de uma vez só. Foi o que deu.

Já entre os marmanjos, a estratégia muda. Ao invés da pauleira (embora ela ainda apareça vez que outra), a cirurgia sem anestésico desenvolve-se aos poucos durante cada jogo. Aqueles procedimentos supracitados, vão se desenvolvendo desde os primeiros minutos da partida até seu final. Os árbitros perderam a força. E graças às suas fraquezas, acabam cúmplices de tudo. Por outro lado, os  telespectadores perdem a paciência. Vão somatizando sensações negativas sem darem-se conta e que no contexto de suas vidas, onde diariamente acompanham os nocivos conchavos da política com o judiciário - cuja tabelinha resulta em sentenças políticas, e não constitucionais -  acompanham com preocupação o desemprego galopante com seus índices manipulados, a violência urbana, enfim... E o resultado é este: ódio e indignação que também vão se transformando no “novo normal” da convivência humana. Não é pra menos que hoje as medicações mais vendidas nas farmácias são os ansiolíticos, antidepressivos e anti-hipertensivos. Se tudo continuar como está, e de forma escancaradamente recorrente sob olhares doentios dos governantes,  o “novo normal” do futuro serão os selvagens procedimentos medievais do passado.

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As concessionárias de pedágio no RS mamam numa teta deliciosa há mais de três décadas. Sai leite com Toddy (ou Nescau, para quem gosta destas porcarias). Descaradamente, sugerem que o negócio é ruim e que estão no prejuízo – o chamado desequilíbrio financeiro – mas não querem perder o leitinho de cada dia e vez que outra aceitam reduzir alguns centavos de suas tarifas para continuar sugando a vaca gaúcha. Tem razão quem diz que nos pólos de pedágio, tudo, desde o início, sempre foi superfaturado. Como foi possível que se tenha permitido isso? Ora, graças a assimilação pelos gaúchos e pelo restante dos viventes neste País, de uma velha mentira, que repetidas vezes torna-se verdade, especialmente pela colabora$$ão da mídia, pregando o velho e perverso mantra do “privatiza que melhora”. Rio Grande está encurralada por praças de pedágio. Paga-se quase R$ 150 ( se não for mais) para ir e voltar à capital do estado. E o que as concessionárias nos dão em troca? Prestam o relevante serviço de tapar buracos, pintar as estradas, cortar a grama e, o que deve dar mais trabalho, achacar os motoristas com preços extorsivos pelo uso das rodovias. Todo o tipo de fundamentação para acabar com essa mamata não resultou em nada.  O clamor popular faz barulho até chegar  nos tribunais. É onde “justamente” os resultados dão conta de que as concessionárias poderão continuar mamando deitadas até que os blá, blá, blás em juridiquês se percam no tempo.  

A idéia de que privatizar sempre melhora é pura ideologia. Aliás, ideologia associada com esperteza e faro para bons negócios. Um bom negócio nesse tipo de jogada quase sempre significa lesar os interesses da sociedade, convencendo-a de que é para o bem dela. A ideologia dos pedágios vendeu as ilusões do discurso privativista: eficiência e modernidade. Mas entregam apenas uma trafegalidade de nível médio pra baixo. Já era hora de acabar com estes mantras e dogmas. Que nos digam as operadores de telefonia móvel . Praticam  preços de primeiro mundo para um serviço haitiano. Mas tem que goste. E até estimule. Alguma coisa estão ganhando enquanto a maioria perde. Sempre.

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Desejos a todos os leitores um 2021 melhor do que 2020 em todos os sentidos.

 

Jorge Hohmann é radialista

 

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