Jornal Rio grande

Reitor da UFPel prevê aumento nas mortes por Covid durante o verão

  • Redação JRG/Brasil de Fato
  • 05/01/21 as 16:18

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Pedro Hallal, reitor da UFPel. Foto: DIvulgação

Especialistas de renome no país têm manifestado preocupação com o não cumprimento do distanciamento social pela população brasileira. Inclusive já foi falado que este poderá ser o pior janeiro da história no Brasil, levando em conta as festas de final de ano e as aglomerações tão comuns no verão, especialmente nas praias. Agora, é o reitor da UFPel, Pedro Hallal, que mostra-se alarmado com a situação. Em entrevista publicada hoje, 5,  no site Brasil de Fato, com o título "Pesquisador prevê estouro nas contaminações e mortes por covid-19 durante o verão", ele se mostra pessimista com o avanço da pandemia. Para o reitor da UFPel, que conduziu uma das maiores pesquisas sobre a Covid-19 no mundo, tornando-se referência em políticas para combate ao coronavírus em diversos países, “na próxima semana aumentará muito o número de casos; duas semanas depois, as internações vão lotar os hospitais e, na terceira semana, aumentarão os óbitos”. Pedro Hallal disse ainda que "as perspectivas de aumento da doença são as piores possíveis, principalmente devido às novas mutações do vírus, a chegada do verão e as aglomerações nas praias do litoral brasileiro".

Hallal possui graduação em Educação Física e mestrado e doutorado em Epidemiologia pela UFPel. Além disso, realizou estágio pós-doutoral no Instituto de Saúde da Criança da Universidade de Londres e atua como docente da UFPel no curso de graduação em Educação Física e nos programas de pós-graduação em Educação Física e Epidemiologia. Confira trechos da entrevista concedida ao site Brasil de Fato Rio Grande do Sul:

 

BdFRS - Quais os efeitos que poderão advir dessas aglomerações das festas de fim de ano que aconteceram em todo o Brasil?

Pedro Hallal - Desde o começo da pandemia, o comportamento tem sido o mesmo. Sempre que há um excesso de aglomerações, uma semana depois começa a bombar o número de casos. Duas semanas depois, começam a aumentar os números de internações. E três semanas depois, infelizmente começam a aumentar o número de óbitos. Em qualquer excesso que foi cometido na pandemia desde o começo, esse foi o preço que nós pagamos. Infelizmente, a probabilidade maior é que aconteça a mesma coisa. Uma semana depois do réveillon, aumentam muito os casos. Duas semanas depois, as internações. E três semanas depois, os óbitos.

Então temos que esperar que aumentem os casos em todo o país?

Exatamente, ainda mais se continuarem agora, durante o verão, as aglomerações que a gente observou na virada do ano. Se continuarem aglomerando, infelizmente a gente sabe que não tem atalhos: o coronavírus reage. Ainda mais agora, que chegou ao Brasil esta nova cepa, que é ainda mais transmissível, 69% a 70% mais transmissível do que a anterior. Então aumenta mais o risco de contaminação.

Essas mutações do vírus vão fazer com que ele se comporte igual a uma epidemia do tipo H1N1, cuja vacinação é anual?

Não se tem certeza, mas é possível, sim. Já se tinha uma perspectiva de que a vacina do corona não fosse uma daquelas que se toma uma vez só na vida. Agora, ainda mais com essas mutações, cada vez mais vai ficando provável a situação de que nós teremos que refazer essa vacinação de tempos em tempos. Se vai ser de ano em ano, de dois em dois anos, isso aí o pessoal da virologia da área de vacinas está estudando. Mas certamente não vai ser uma vacina que a pessoa fará uma única vez na vida.

Como entende a política de enfrentamento ao coronavírus feita pelo Ministério da Saúde, com essa falta de logística que ficou provada na questão da compra de seringas e agulhas?

Para falar a verdade, eu não sei qual é a política do Ministério da Saúde de enfrentamento ao coronavírus. Eu estou nesta luta desde que começou a pandemia e eu sinceramente não entendo ainda qual é a política. A política de testagem é muito frágil no Brasil. A política de rastreamento de contato também é muito frágil. A questão do distanciamento social, o próprio presidente da República desmoraliza os ministros quando eles falam sobre distanciamento social. Até o uso de máscaras, o presidente desestimula. Então eu tenho muita dificuldade de saber qual é a política nacional de enfrentamento da pandemia.

Quando chega ao assunto das vacinas, é mais grave ainda. Já têm 40 países no mundo em campanha de vacinação, o Brasil não é um deles. E o Brasil é o terceiro país mais afetado pela pandemia em número de casos e o segundo em número de mortos. Então o Brasil não poderia se dar ao luxo de ficar tão atrasado assim para começar a vacinação da população. A resposta sincera para esta pergunta é: eu não sei de que política estás falando, porque eu não sei qual é a política de enfrentamento da pandemia.

E esse atraso vai definir um tempo muito grande para ficarmos com a pandemia?

Claro. Cada dia de atraso significa mais mortos, são menos pessoas imunizadas por uma vacina. Então cada dia de atraso são mais mortes. Infelizmente, 40 países do mundo já estão fazendo vacinação, e nós não somos um deles.