Jornal Rio grande

O Crime dos Banhados agora em livro

  • Ique de la Rocha
  • 11/01/21 as 15:35

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Cledenir Vergara Mendonça, historiador e morador da Vila da Quinta desde que nasceu, há 58 anos, foi autor do trabalho de pesquisa sobre o famoso Crime dos Banhados, que abalou a cidade e teve repercussão nacional no início do século passado. Seu trabalho, intitulado “Visões discursivas a respeito de um crime”, na pós-graduação da Especialização em História, na Furg, agora está sendo preparado para virar livro, e deverá ser editado este ano, com entrevistas exclusivas, inclusive de descendentes, com a participação de familiares na reconstituição dos crimes. “Estou tirando o rigor acadêmico para tornar o texto mais suave. Vai ter fotos da cidade na época e o envolvimento econômico, político e cultural no caso”, adianta ele.

 

Como foi o crime

A folhinha da casa em que moravam as vítimas marcava o dia 29 de abril. Naquela data, em 1912, foram assassinadas seis pessoas de uma mesma família. A chácara dessa família ficava a cerca de 22 quilômetros para dentro da fazenda Passo da Estiva. O local era conhecido por Banhados, já no Distrito do Taim, e só veio a se saber da chacina uns 15 dias depois, quando tropeiros viram urubus sobre a casa e encontraram os corpos em estado de putrefação. A casa estava toda arrumada por dentro e não havia vestígio de sangue. Encontraram quatro crianças mortas numa cama e, em outra cama, a mãe abraçada com mais dois pequenos, um de cada lado. Todos eles foram executados com tiro na têmpora e a mulher, que estava com o corpo seminu, apresentava sinais de violência e corte no pescoço. O chefe da família, Manoel Antonio Silveira de Azevedo, nunca foi encontrado  e chegou-se a cogitar que ele poderia ter sido o assassino, mas logo depois surgiram outras evidências mais fortes e, na verdade, ele teria sido assassinado também.

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A manchete do jornal Echo do Sul

A seguir o historiador Cledenir Mendonça nos fala sobre o crime e o livro:

JRG - Quem foram os assassinos?

Chegaram a falar que a chacina teria acontecido a mando do intendente Trajano Lopes, que tinha uma ligação muito forte com o coronelismo. Ele tinha poder, força e dinheiro, características básicas que impulsionavam a rede de apoio durante a República Velha. Foi um dos últimos representantes das oligarquias rurais no Rio Grande, mas ele havia morrido um mês antes do crime. Chegou-se a cogitar nos jornais de oposição da época que a esposa dele teria sido a mandante, mas o crime termina sem os culpados. Foram apresentadas provas contra três capangas, jagunços, mas no final o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal e essas provas foram consideradas insuficientes.

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O Intendente Trajano Lopes

Quais os motivos que levaram a esse crime?

Falaram que seria por questão de dinheiro. Chegaram a falar que a família possuía ouro. Para muitos, a tese predominante foi que a família tinha um débito com o Intendente Trajano Lopes, mas nunca surgiram evidências que comprovasse.

O crime teve intensa repercussão ao ponto de terem feito um filme?

Sim. A repercussão foi muito grande pela barbárie do assassinato de uma família inteira com crianças de 13 meses a 9 anos. Se hoje as notícias de chacina chocam, imagina naquela época. Até a década de 1970, se rezava missa pelas almas penadas dos Banhados. Quando a família Cupello passava de carreta na frente da chácara, a mãe mandava fazerem o sinal da cruz. Algumas pessoas falavam que o local era meio assombrado, mas é mais jornalismo que propriamente história. O crime teve intensa repercussão. Foi notícia em todo o Rio Grande do Sul e no Brasil. Depois virou filme (“O crime dos banhados”), feito pela Fábrica de Filmes Cinematográficos Guarany Filmes, de Pelotas. Foi considerado o primeiro longa metragem produzido no Brasil, em 1914. Antes, em 1913, ainda teve uma novela em cinco capítulos no jornal Diário, em 1913, depois reconstituído no cinema e analisado no processo criminal. Agora surge o livro com o desafio de reconstruir um tempo na qual a cidade nem se reconhece. Era a época da abertura da Barra e das novidades da tecnologia no nascente século 20.

 

As fotos são do arquivo do pesquisador Cledenir Vergara Mendonça

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