Jornal Rio grande

Quem mandou a Ford embora?

  • Ique de la Rocha
  • 13/01/21 as 9:15

Como se não bastassem todos os problemas que os brasileiros vêm enfrentando com pandemia, desemprego, violência de tudo que é lado, os preços a todo dia subindo nos supermercados, eis que a Ford surpreendeu o país com mais uma notícia negativa: está trocando o Brasil pela Argentina. Em que pesem os resultados dos últimos anos, quando a montadora, que era considerada a maior do mundo, perdeu mercado e acumulou prejuízos, a saída dela do país terá repercussão mundial e dará margem a muitas análises. A principal delas é de que o Brasil hoje não possui ambiente favorável para investimentos.

Defensores do governo tentam dizer que a culpa é da própria montadora, porque não se modernizou. Bolsonaro disse aos seguidores de plantão que a empresa queria incentivos e ele não deu. Encarnou o Olívio Dutra de muitos anos atrás. Só que os mesmos que discordavam de Olívio agora concordam com Bolsonaro.

Mais alguns milhares de empregos serão sacrificados. O próprio chefe da Nação tentou minimizar isso, mas da mesma forma que pretendeu minimizar a pandemia. Será que ainda tem quem acredite?

É evidente que a Ford está indo embora porque não acredita no Brasil. Mais uma vez o grande guru da nossa economia, Paulo Guedes, mostra a que não veio. Seu discurso não consegue atrair o capital externo. Muito pelo contrário, como vemos agora, Em dois anos ele não gerou um emprego sequer (e ainda desempregou mais), a maioria das empresas brasileiras está com a “corda no pescoço” (fora as que quebraram), não atingiu nenhuma de suas metas para a economia, nem o índice da inflação como se viu agora. Alguns dirão que a culpa é da pandemia, mas o vírus chegou no Brasil há 10 meses, em março de 2020. Guedes e Bolsonaro tiveram 1 ano e dois meses pré-pandemia para fazer alguma coisa. E não fizeram.

Aqueles “especialistas” que surgiram no Brasil com a internet e querem impor seus “conhecimentos” insistirão com a tese de que a montadora norte-americana se foi porque não se modernizou ou queria incentivo e não irá fazer falta. Mas ela continuará operando na Argentina e no Uruguai, mesmo sem ter se modernizado e sem incentivo. São dois mercados consumidores muito menores que o nosso. A Argentina está mergulhada numa crise ainda pior que a nossa. E mesmo assim a Ford preferiu ficar naquele país e nos deixar. É que ninguém melhor que eles, construtores de automóveis, para saber do perigo que é um veículo desgovernado. Imaginem, então, o que representa um país desgovernado.  

Sonhos desfeitos

As cidades brasileiras que sediaram as instalações da Ford estão sofrendo uma perda irreparável: os milhares de empregos diretos, um maior número ainda de empregos indiretos, as centenas de empresas sistemistas, a geração dos impostos e a referência de sediarem uma grande empresa.   

Não tive como deixar de comparar a situação com a nossa, quando acabaram com nosso Polo Naval. É um sonho desfeito. Para aqueles que investiram acreditando no progresso da comunidade e depois se veem sem expectativa de recuperar o investimento, é mais do que isso: um verdadeiro pesadelo.

Uma montadora equivale a um estaleiro

Para os que ainda não aquilataram o tamanho de um estaleiro para a economia, podemos compará-lo a montadora de automóveis. Rio Grande e São José do Norte tinham três estaleiros, ou seja, o equivalente a três montadoras de automóveis. Mas os retrógrados, que queriam a cidade só para eles, para continuarem mandando e pagando salários pouco mais que o mínimo aos seus funcionários, preferem Rio Grande como está hoje.   

Afinal, quem mandou a Ford embora?

Foi o Olívio, o Bolsonaro, o Paulo Guedes, a pandemia ou será mais uma para colocar na conta do Lula?