Jornal Rio grande

Como a pandemia afeta os motoristas de aplicativo em Rio Grande?

  • Matheus Magalhães da Silva
  • 03/11/20 as 17:18

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Foto: Pixabay

A pandemia modificou a rotina dos riograndinos e muitos serviços foram afetados. Um deles, o de aplicativos de transporte, acabou por gerar diferentes opiniões entre usuários e motoristas. O mais popular, Uber, decidiu alterar a tarifa e diminuir o valor base da corrida como estímulo para obter passageiros. Além disto, diversos protocolos de segurança tiveram de ser adotados pelos motoristas, limitando, por exemplo, o número máximo de passageiros por corrida. Esta nova realidade está sendo sentida pelos trabalhadores que alegam estarem satisfeitos com as medidas de segurança, mas consideram a questão tarifária um problema.

 

O que pensam os motoristas?

Maycon Francelino, 37, afirma que não houve mudança significativa de entrada financeira. Ele alega, ao contrário, que a procura pelo serviço aumentou em relação ao período anterior à pandemia. “Adotei a segurança do próprio aplicativo, sendo levar 3 pessoas no banco de trás, todos usando as máscaras e o carro portando álcool 70%”, aponta o motorista. Ele afirma que há insatisfação em relação às tarifas que estão sendo cobradas e reitera a necessidade de um valor justo para suprir as necessidades dos trabalhadores: “Eu acho que teria que ter um valor mínimo estipulado que não afetasse tanto assim a renda dos motoristas, pois temos tantos gastos com manutenção do carro que fica meio complicado para nós”. Por fim, Francelino aponta aquele que considera seu maior desafio: “poder chegar em casa e abraçar meus filhos e esposa mesmo antes da pandemia e pós-pandemia”.

Já João Carlos Santos da Silva, 57, afirma estar satisfeito com os protocolos oferecidos pelos aplicativos. Ele aponta os cuidados com a segurança: “basicamente a higiene do carro, álcool gel, a ventilação, o número máximo de três pessoas por viagem no banco traseiro”. Em relação às tarifas, Silva acredita que há prejuízo aos motoristas pela margem baixa anterior à pandemia e sua subsequente diminuição: “Em relação às tarifas, a Uber lançou o Uberpromo como forma de angariar mais viagens, tendo em vista a pandemia, mas como já trabalhamos normalmente com uma margem extremamente pequena, ficou quase que inviável, acarretando muitos protestos por parte dos motoristas no país inteiro”.

Marcelo Carvalho Rodríguez, 50, afirma se sentir seguro com os protocolos disponíveis. “O mais desafiante foi higienizar o carro, lavar as mãos e me cuidar”, pontua. Rodríguez afirma que o aplicativo que está oferecendo ajuda é a Uber, através do reembolso com os gastos envolvendo material de limpeza.

Daísa Vianna Brião

Daísa Vianna Brião (foto ao lado), 37, sentiu mudanças no perfil dos passageiros: “No início chegava a esperar uma hora e quinze, uma hora e meia por corrida. Depois as demandas voltaram ao normal da cidade. O que mudou, no meu ponto de vista, outro colega pode ter outra opinião, foi o público, horários e locais de chamada”. Ela aponta mudanças em decorrência da diminuição de oferta do transporte coletivo. “A exposição maior a assaltos, principalmente as mulheres relatam que chamam mais porque somada a exposição menor ao vírus do que no ônibus, ficam menos a mercê de um assalto no trajeto que fazem até a parada de ônibus, por exemplo. São relatos que os passageiros me contam”. Houve, também, desafios em relação à conduta dos passageiros: “Antes dos avisos do aplicativo para os motoristas eu me incomodava muito mais, mas ainda me incomodo com alguns adultos que se portam como crianças e aí tu precisa ficar vigiando pelo espelho se o narizinho das belezocas não estão para fora”. 

No que tange à questão das tarifas, ela reflete que não houve impacto positivo para os motoristas. “Alguns motoristas acreditam na história do “faça seus horários” quando a realidade é um tanto diferente. O aplicativo tem várias formas de diminuir o repasse para o motorista, um deles é no minuto e no km rodado, mas pode ser de outras formas também. O que vejo é que criam mecanismos de baratear o valor da corrida para manter a competitividade com outro apps”, pondera. Ela relata que as formas como os aplicativos estão lidando com a nova realidade acabam por prejudicar os motoristas e, por consequência, os usuários: “cada vez mais motoristas cansados, com a saúde debilitada por ficarem horas direto no volante, o carro depreciado demais e o motorista com menos capital para investir no seu veículo, além do psicológico por conta da exposição a assaltos, problemas com viagens, atenção ao volante, passageiro, chamadas ao mesmo tempo. Na minha visão é uma exploração moderna do serviço do motorista”, conclui.