Jornal Rio grande

Site especializado critica venda de plataformas como sucata aqui

  • Ique de la Rocha (ique@jornalriogrande.com)
  • 15/01/21 as 10:58

 

Todos lembram que a reativação da indústria naval brasileira, com as encomendas feitas pela Petrobras, desenvolveu várias regiões do Brasil que careciam de investimentos. Rio Grande é um exemplo, como poderiam ser citados também os estaleiros construídos no nordeste brasileiro. Um estaleiro gera milhares de empregos diretos e indiretos, atrai grande número de empresas sistemistas. Equivale a uma montadora de automóveis, tão disputada em qualquer lugar do mundo. No caso do Rio Grande e São José do Norte, tivemos três estaleiros. Se Gravataí e o Rio Grande do Sul comemoraram a vinda da GM, imaginem então se fossem três GM ao mesmo tempo. Foi o que tivemos aqui na região com os estaleiros Quip (depois QGI), WTorre (depois Ecovix) e o EBR. Não precisamos citar os benefícios de empregos, investimentos privados e públicos, duplicação de rodovias, linhas aéreas, movimentação da economia local e regional, etc.   

O Governo Federal e os que torcem contra os estaleiros insistem que é melhor construir as plataformas no exterior devido a roubalheira. A Operação Lava-Jato, que apurou as inúmeras irregularidades ocorridas na época, não pode ser usada como justificativa para a decisão de fazer encomendas no exterior. Se houve roubo, troque-se as empresas envolvidas, se for este o caso, por outras. Até mesmo que se contrate empresas do exterior, mas para construírem aqui, em nossos estaleiros, com aproveitamento da mão de obra e do conteúdo local. Nossas autoridades procuram dizer que no exterior é mais barato, mas as empresas brasileiras, através do Sinaval, o sindicato do segmento, alegam que lá fora os estaleiros recebem incentivos do governo, enquanto aqui nem isso é feito mais.     

O Brasil tem empresas e mão de obra capacitada. Já provou isso. Inclusive teve uma plataforma construída na China que veio com problemas e foi consertada em um de nossos estaleiros. Será que não tem alguma coisa a mais por trás dessa insistência em fazer as encomendas no exterior, gerando riqueza e emprego lá fora, enquanto aqui o desemprego atinge cerca de 30% da população ativa e o presidente da República há pouco disse que o país está quebrado?

Mais duas plataformas vão para a Ásia

O Petronotícias é um site especializado em óleo, gás e energia, que conta com uma equipe de jornalistas experientes e de grande credibilidade, tanto que tornou-se visita obrigatória de empresários e autoridades ligadas a estes segmentos.

Diariamente são postadas várias notícias do setor e comentários dos próprios jornalistas. Nesta última quinta-feira, 14, um dos destaques foi artigo da redação com o título “Petrobras decide construir mais duas plataformas no exterior e frustra novamente empresas brasileiras”. Dá uma amostra de como as autoridades brasileiras estão tratando a indústria nacional. Bastaria uma “canetada” para gerar mais empregos de imediato e estimular a produção, mas parece que isso não interessa. Nas críticas à Petrobras, também é citada a venda de plataformas como sucata, que estavam no Estaleiro Rio Grande.  

O referido artigo inicia assim: “O Petronotícias publicou uma entrevista especial com o Ministro de Minas e Energia na terça-feira (12), onde o Almirante Bento Albuquerque encheu de otimismo o empresário brasileiro do setor de óleo e gás, que se sente abandonado por  ser raramente contratado para fazer obras para a Petrobrás. A preferência tem sido escolher empresas estrangeiras. Para as brasileiras, sobra uma obra aqui outra ali, mas sempre as menores. Apesar do chamamento ao otimismo, o presidente da Companhia, Roberto Castello Branco, deu de ombros e virou as costas às orientações de seu chefe. Ele é subordinado ao Ministro Bento, mas foi professor do Ministro Paulo Guedes, que lhe convidou para o cargo. E isso parece lhe dar um certo poder. E se depender dele, vai impor o que aprendeu e ensinou nos bancos da Universidade de Chicago: um liberalismo dos anos 60, que nem os Estados Unidos usam mais. Basta olhar a política do Presidente Donald Trump que fez a América voltar a crescer. É o liberalismo do farinha pouca, meu pirão primeiro. Se depender de Castello Branco as empresas brasileiras vão continuar a comer o pão que o diabo amassou”.

O artigo cita que, depois da decisão de conteúdo local zero pra a plataforma de Mero 3, Castello Branco indica a Sérgio Bacci, vice-presidente do sindicato da indústria naval (Sinaval) que as plataformas P-78 e P-79, destinadas ao campo de Búzios, serão levadas para a Ásia: “Esta decisão faz pensar qual será o legado que o presidente da Petrobrás deixará para sua história e para a história das indústrias da cadeia de petróleo do país. Será que seus filhos e netos terão orgulho do pai e do avô que provoca o fechamento de inúmeras indústrias e o fechamento de milhares de empregos? O futuro, logo ali, dirá. Ele pode até estar bem intencionado falando que deve haver competitividade, mas esquece que para isso precisa de igualdade de condições. É o mesmo que exigir que o lendário Ayrton Senna vencesse uma corrida dirigindo um fusca contra Lewis Hamilton com a sua Mercedes”.

Ford extinguiu 5 mil empregos. Duas plataformas criam 8 mil empregos diretos e 80 mil indiretos

Prossegue o Petronotícias: “Não se trata de política de direita ou esquerda ou de protecionismo, mas de desenvolvimento com experiência para que haja sobrevivência das nossas indústrias e de nossos profissionais. Para um bom professor, a matemática deveria merecer mais respeito. E no caso dos números do desemprego no país, ela é contundente. Só não é para aqueles que não querem ver. São dados oficiais: 14,1 milhões de desempregados; 5,9 milhões de desalentados; 30,3% da população ativa está subutilizada. Mas, se não dói em mim, ninguém deve sentir nada também. Só assim se pode compreender o lema de Castelo Branco. O país precisando de empregos e a companhia usa seus investimentos para se criar empregos aos milhares no exterior. É assim mesmo? Durante a campanha para a presidência, o partido do Presidente Bolsonaro usava esses argumentos contra seus adversários. Dizia-se que o dinheiro do contribuinte brasileiro era usado para construir obras fora do país. Há dois dias (11), a Ford anunciou a saída do país e o fim de 5 mil empregos. Duas plataformas criam mais de 8 mil empregos diretos e mais de 80 mil indiretos”.

Sobre a gestão de Castello Branco na Petrobras, o articulista do Petronotícias comenta: “Durante esses dois anos no cargo, demitiu, vendeu empresas, se desfez da maior distribuidora de combustível, dos maiores gasodutos do país, de fábricas de fertilizantes e não quer parar por aí. Quer vender também as refinarias. Forçou aposentadoria dos mais experientes profissionais da empresa e estabeleceu a política de focar apenas na produção dos campos do pré-sal. Será que  todas as petroleiras do mundo estão erradas e só a Petrobras está certa?” E mais adiante observa: “Ninguém pode dirigir uma companhia como a Petrobrás sem a mesma paixão que seus funcionários tem pela empresa”.

Críticas à venda de plataformas como sucata aqui

O Petronotícias lamenta que “a decisão da Petrobrás sobre contratar no Brasil as plataformas P-78 e P-79 seria uma grande oportunidade de se gerar um grande impacto na geração de empregos e renda no país, principalmente no setor naval brasileiro. Os estaleiros estão praticamente abandonados.  Roberto Castello Branco retirou o compromisso de políticas públicas que favoreciam o desenvolvimento do País. Devido a dificuldade de produzir igual ou ao menos similar à Ásia, seja por questões financeiras ou de impostos altos, exigências trabalhistas e exigências de QSMSRS, o Brasil não consegue ter uma regularidade. Não consegue ser competitivo. A Petrobrás fala em redução de custo mas, ao mesmo tempo, vende como sucata duas plataformas já cortadas e que estavam prontas para ser montadas. A explicação para que isso aconteça assim seria interessante de ouvir. Mas este segredo é guardado a sete chaves. É verdade que não foi uma decisão tomada nesta administração, mas foi mantida por ela. Até hoje o Estaleiro Rio Grande, no Rio Grande do Sul, ainda não conseguiu se desfazer dos pedações dessas plataformas. São as contradições de uma companhia que tem todos os ingredientes para ser o motor da retomada dos negócios, mas que foi contaminada  por um sentimento ainda pior do que o Covid-19: a insensibilidade”.