Jornal Rio grande

Entrevista: Danilo Giroldo, o novo reitor da Furg

  • Ique de la Rocha
  • 16/01/21 as 14:02

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Foto: Furg

Os primeiros dias de janeiro de 2021 não irão sair da memória do professor Danilo Giroldo. Atual vice-reitor da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e eleito reitor para a gestão 2021-2025, ele aguardava com ansiedade a confirmação de seu nome pelo presidente da República, que vinha preterindo os melhores votados por outros nomes das listas tríplices enviadas pelas universidades gaúchas.

A expectativa era grande em toda a comunidade universitária. Ele mesmo admite que foram dias de muita tensão: “Sim. Foi uma semana de muita angústia. Não só pelo que aconteceu em Pelotas, na UFPel, mas pela conjuntura que foi se formando. Parecia uma tendência no Rio Grande do Sul não ser o primeiro da lista e ficamos apreensivos. Valeu muito a força institucional da Furg, que ao longo de sua história formou muitas parcerias. Diria que nossa rede de proteção institucional funcionou”.

Sobre a transição, Giroldo diz que “está tranquila. Imediatamente à confirmação de nosso nome na lista tríplice montamos o grupo de transição e iniciamos a formação da equipe, com a escolha dos Pró-Reitores, diretoria, chefe de gabinete e outros nomes”. Sobre as nomeações, adiantou: “Algumas pessoas ficam, mas estamos com uma taxa de renovação maior de 50 por cento”.

Prioridades e o relacionamento com a comunidade

“Nos debruçamos no projeto de gestão defendido e construído com a comunidade”, revela o novo reitor da Furg, que já tem definidas suas prioridades e as prioridades de cada ré-reitoria. Conforme ele, uma delas será a área de integridade pública, relacionada à transparência, conformidade contábil, prevenção às fraudes e a todo tipo de irregularidades. É uma novidade no serviço público, especialmente no Brasil, mas que estará presente nessa nova gestão. “A Furg já tem plano de integridade em sua página e vai ser um grande pilar a sua execução”.

Danilo Giroldo reafirma seu propósito de atuar também no enfrentamento à violência, opressões e com ações afirmativas referentes aos “grupos historicamente oprimidos e a todas as formas de violência”. Também cita como prioridade a transformação digital e inovação tecnológica, incluindo o aprimoramento e crescimento dos sistemas informatizados da universidade.

Outro objetivo é a reestruturação do Conselho de Integração Universidade/Sociedade, que será um instrumento importante “para construirmos uma agenda com os diferentes segmentos da nossa sociedade. Principalmente um instrumento de escuta, pois queremos ouvir os movimentos sociais, empresários e todas as representações da comunidade”.

Giroldo entende que “a Universidade hoje está pronta para fazer o relacionamento com a comunidade, através da inovação, empreendedorismo, economia solidária e muitas outras ações. Temos uma curriculização em Extensão muito forte e deveremos aprovar, neste primeiro semestre, a deliberação para que 10% da carga-horária dos cursos sejam dedicados à extensão, sejam para a comunidade. É um desafio a mais. A Reitora Cleuza abriu ainda mais a Furg para a comunidade e temos mecanismos muito bons para trabalhar as demandas da sociedade”.

Reitora foi “uma liderança brilhante”

Giroldo só tem elogios a fazer à Reitoria Cleuza Maria Sobral Dias e afirma que está recebendo a Furg “em ótimo momento. A professora Cleuza foi a primeira mulher a dirigir nossa universidade e mostrou ser uma liderança brilhante, que fez um trabalho exemplar em todos os aspectos. Foi uma honra para mim poder participar ao lado dela nesse momento histórico, de crescimento da Furg. Sua atuação me ajudou muito na pesquisa de opinião, no relacionamento com a comunidade universitária, mas costumo dizer que em gestão não existe perfeição. Tem de ter melhoria contínua e vamos perseguir isso”.

Transformar vidas e a sociedade

Danilo Giroldo nasceu em São Paulo e passou parte da infância e juventude em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Seus pais sempre o incentivaram, especialmente com relação aos estudos. Sua mãe costumava dizer que o papel da universidade era transformar vidas e a sociedade. “Cresci com esse ideal e em São Carlos [onde cursou a universidade], tive a certeza que era essa minha vocação. Um espaço que não desejaria sair nunca mais. Trabalhei vinculado à pesquisa na Universidade de São Carlos e vim para Rio Grande (em 2004) realizar esse sonho de uma carreira acadêmica universitária”, conta o novo reitor, que acrescenta:

- A Furg me deu a oportunidade de realizar esse sonho e as coisas aconteceram, mas a forma como aconteceram jamais imaginei. Foi tudo muito rápido e sou muito grato à universidade. Também devo muito ao professor Ernesto Pinto, que tinha muita força como vice-reitor.  

JRG - Quais seus projetos para os campi avançados em Santa Vitória do Palmar, São Lourenço do Sul e Santo Antônio da Patrulha?

- Cabe lembrar que temos, ainda, os polos de educação à distância. Os campi serão um desafio para nossa gestão. Eles possuem necessidades diferentes, ainda carecem de infraestrutura e vamos precisar de um esforço institucional muito grande para prover a estrutura nesses campi, especialmente em São Lourenço do Sul, que demorou a ter um terreno próprio e agora precisa ser construído. Os outros também tem demandas.

Como será possível conciliar a realização dos projetos com os cortes de recursos para as universidades?

- O cenário orçamentário é complexo e temos duas formas de enfrentar isso: com gestão orçamentária, uma boa gestão sobre gastos, custos fixos; e captar recursos, seja por emenda, seja por parcerias e vou trabalhar muito isso, porque para a infraestrutura vai ser um desafio muito grande para nós.

Como o senhor vê o potencial do município do Rio Grande?

- É fantástico. Se conseguirmos que todos os atores remem na mesma direção, Rio Grande tem um potencial excepcional: indústria, turismo, comércio e serviços, o APL Marítimo...

Na sua visão o Polo Naval tem possibilidade de ser retomado?

- Não está no mesmo tamanho que antes, mas está aí. Tem de encontrar o seu caminho. Sempre defendi uma política industrial para a área de óleo e gás e vamos ser sempre um espaço estratégico. O estaleiro EBR já mostrou sua eficiência e o ERG (Estaleiro Rio Grande) também.

Qual a importância da Furg na sua vida?

- A Furg para mim é tudo. Devo muito à Universidade de São Carlos, mas quem deu oportunidade de realizar meu sonho profissional foi a Furg. Gosto muito da Furg, da cidade do Rio Grande e do futebol amador. Poucas cidades tem tantos clubes centenários. Fui levado para o futebol amador pelo Reni Dias, presidente da Liga de veteranos. Fui goleiro do Palmeiras daqui, que é bi-campeão dos Veteranos, mas estou há três anos sem jogar devido a problemas no joelho. Pretendo voltar a jogar em breve. Gosto muito da cidade. Dos três filhos, dois nasceram aqui e estou muito bem adaptado. Minha gestão vai passar e deverei retornar à sala de aula, mas quero seguir na Furg para sempre.