Jornal Rio grande

Eles chegaram na hora certa, mas foram impedidos de fazer a prova

  • Ique de la Rocha
  • 18/01/21 as 20:22

Estudantes rio-grandinos relatam indignação com desorganização do Enem

Não bastassem as dificuldades naturais da prova e o temor com o contágio da Coronavírus, muitos candidatos que prepararam-se para o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), neste último domingo,  17, ainda tiveram outro obstáculo pela frente. É que, mesmo chegando antes do horário determinado, vários foram impedidos de entrar na sala de provas, quando elas atingiam 40% da capacidade.

A atitude causou revolta e frustração nos candidatos que se prepararam para a prova com o sonho de entrar na faculdade. Os protestos hoje são inúmeros nas redes sociais, especialmente em grupos do Facebook. Chegaram a citar que numa escola local o candidatos que não puderam prestar o exames ainda teriam sido impedidos de deixar o local antes do horário de entrega das provas. Além da insensibilidade dos responsáveis, a postura mostrou uma desorganização muito grande.  

O ator Bruno Amaro, de 25 anos, que ficou popular ao se caracterizar de Charles Chaplin ou da Velha Surda da Praça, já tinha feito o Enem. Na última prova ele não obteve aprovação e atribuiu isso a um acidente sofrido, que o impediu de preparar-se melhor. Agora, ele iria fazer os exames com a intenção de, uma vez aprovado, cursar Psicologia. Sua prova estava marcada para a escola Barão do Cerro Largo. O regulamento constava o fechamento dos portões às 13 horas e o início das provas meia hora depois. Precavido, ele chegou por volta de 12h10min. “Estava tranquilo, ainda não tinha muita gente e fiquei no pátio pegando um ar e relaxando um pouco”, conta. Só que não demorou e apareceu uma moça dizendo que ele deveria comparecer na coordenadoria. Lá uma fila se formou e a coordenadora, que recebeu os candidatos individualmente, informou que tinha recebido um aviso, de última hora, para permitir a ocupação das salas dos exames com apenas 40% da lotação e que eles ficariam de fora.   

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Bruno Amaro

Os candidatos, tomados de surpresa, deixaram seus dados pessoais com a referida coordenadora e foram orientados a ligar para o número 0800 616161, onde seriam informados sobre a nova data para realização da prova. Até às 14h30min de hoje, quando conversamos com Bruno, ele disse que desde ontem vem fazendo várias tentativas "e o número nem chama”.

 

“Foi um amadorismo tremendo”

“O sentimento foi de tristeza, mas fico mais triste pelos alunos que se prepararam muito mais que eu, pelos pais que investiram em cursos preparatórios para seus filhos, além de toda a pressão psicológica que os candidatos enfrentam”, observa o jovem ator. “Imagino como não estão eles hoje. Investiram tempo e dinheiro e não conseguem nem entrar em contato pelo 0800”  

Bruno Amaro acha que este “não era o melhor momento [para a realização do exame], mas, como estão liberando os bares, as festas, os pubs, também liberaram o Enem. Até poderiam ter feito, mas num ginásio fechado, com distanciamento controlado. Não assim. Foi um amadorismo tremendo. Nunca vi isso”.

 

Candidata foi ao banheiro e ficou sem a prova

A estudante Júlia Selayaran Costa, de 18 anos, estudou bastante para o Enem, especialmente Redação. Ela estava tranquila, apesar da ansiedade, mas confiante com a possibilidade de conseguir entrar para a Faculdade de Artes Visuais.

No domingo ela já tinha ultimado os preparativos para que tudo transcorresse normalmente. Por volta de 12h30min chegou no Instituto Estadual Domingues, na rua Marechal Floriano. Meia hora antes do fechamento do portão e uma hora antes de iniciar a prova. Quando chegou foi direto para a sala 4, que fica no andar superior, deu seu nome e o cartão de confirmação para uma moça que estava na entrada assinar.

A moça disse que poderia deixar as máscaras faciais, água e caneta na sala e ir ao banheiro, caso desejasse. Ela foi e, ao retornar, a surpresa: lhe disseram que teria de falar com a coordenadora. “Sem entender nada, eu fui”, conta ela, que foi novamente surpreendida, agora pela coordenadora, que disse: “Não vais poder fazer a prova”.

Júlia diz que ainda pensou: “O que será que fiz de errado?”. Foi quando a coordenadora explicou que só era permitida a ocupação máxima de 40% da sala de aula, determinação que a jovem desconhecia. Orientou-lhe a ligar para o número 0800 do Inep e remarcar a prova.

Segundo ela, a mulher perguntou se podia ficar com seu cartão de confirmação. “Atordoada eu dei e ela foi embora. Era meu primeiro Enem e não sabia como agir. Passei ontem e hoje ligando para o Inep e sempre cai na caixa postal”.

Júlia diz que retornou ao colégio, acompanhada do namorado, para pedir algum documento comprovando que foi impedida de fazer a prova e disseram que não tinha como. Insistiu que eles estavam errados e que deixaram passar outra pessoa na frente, mas de nada adiantou.

A jovem relata a tristeza pelo ocorrido: “Chorei bastante e fiquei muito triste. Até larguei o celular, que tinha várias mensagens desejando boa sorte, para tentar esquecer o que aconteceu. Eu só queria fazer a prova”.

 

"Como vou comprovar que estive lá? Não assinei e nem recebi nada"

Moradora do bairro Lar Gaúcho, Luana Pires, de 21 anos, se preparou durante o ano para tentar o ingresso no curso de Ciências Contábeis. Mas seu relato pouco difere dos demais. Ao adentrar na Escola Municipal Brigadeiro José da Silva Paes, ela foi surpreendida ao não poder entrar na sala. "Disseram que era para esperar. Eles não sabiam onde nos colocar." Depois de longa espera de quem, ela conta, parecia não saber o que estava fazendo, foi dito aos 21 candidatos que ali aguardavam que eles deveriam ligar para o Inep para remarcar a prova. Triste com a situação, Luana desabafa: "Foi um descaso total. Por que os outros puderam fazer a prova e eu não? Era por ordem de chegada? Não me foi informado isso, pois, se fosse o caso, com certeza teria chegado mais cedo." Assim como os demais entrevistados, a estudante também não conseguiu contato no número de telefone fornecido. Ela mostra preocupação com a remarcação da prova: "Como vou provar que estive lá? Se não assinei nada, não recebi nada em mãos comprovando isso? Isso que me indigna."

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Luana Pires
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