Jornal Rio grande

Cultura e pandemia: como artistas riograndinos vivenciam a nova realidade

  • Matheus Magalhães da Silva
  • 04/11/20 as 13:41

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A pandemia de covid-19 apresentou grandes desafios para todas as áreas de atividade econômica do país. Porém, a área da cultura foi aquela que sofreu o maior golpe: 40% dos donos de espaços culturais estimam perdas de receita que vão de 50% até 100%. Os setores da cultura e economia criativa geram 2,61% de toda a riqueza produzida no país. No Rio Grande do Sul, a evasão de receitas foi a maior do país, com 63% dos donos de casas de show e cultura entrevistados alegando perda total.

Assim como em todo o país, Rio Grande, cidade conhecida por sua viçosa e vibrante cultura, sobretudo no que tange à música, também sofreu com a interrupção da normalidade.

 

A realidade dos músicos e professores de música

Naturalmente, com a diminuição dos espaços e a interrupção de eventos, os músicos locais acabaram por enfrentar uma realidade inédita na cidade. Lilian Helen Guedes, 36, cantora local e professora de música, ressalta que os prejuízos no meio cultural são muitos e generalizados: “é possível dizer que o setor cultural foi altamente prejudicado em vários ramos na forma artística, em performance e produção, que foram absolutamente atingidos, sem que houvesse alguma alternativa na qual auxiliasse a parte financeira”. Guedes também teve de integrar-se às novas modalidades de aulas online, ainda que tenha encontrado desafios na adaptação dos alunos e, mesmo, na disparidade do acesso à tecnologia. “Existe a modalidade de aulas online, porém é uma pequena parcela que consegue se adaptar ao modelo e ainda existe necessidade de conhecimento básico em comunicação online, velocidade de conexão com a internet razoável para que haja qualidade e compreensão”, pondera a musicista que também ressalta a procura baixa por aulas em virtude da contenção de gastos que se seguiu ao período pandêmico.

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                                                             Lilian Helen Guedes (Reprodução)

Guedes aponta que há uma retomada, ainda bastante lenta, dos convites para apresentações artísticas em bares e casas de espetáculo. Quando questionada acerca do que ela pensa sobre esta retomada gradual das atividades, a cantora ressalta a necessidade de união entre os artistas locais para enfrentar a crise que deve permanecer: “Na minha opinião, os artistas devem se mobilizar para manter o padrão de remuneração das apresentações. Pois é provável que com a situação decorrente, os locais não possam ou fiquem estagnados dentro da oferta de trabalho”. Ela pondera que, mesmo antes do cenário de estagnação causado pelo vírus, os cachês já eram baixos e acredita que a tendência é a diminuição dos valores. “Há possibilidade de que se mantenha cachê muito baixo e os músicos se submetendo a tal condição para que possam manter estabilidade no local como já era comum e pode agravar a desvalorização do trabalho artístico”.

 

Estúdios locais e os desafios da pandemia

Michel Corrêa, 32, dono do Estúdio Vitrola, ressalta uma outra realidade: a dos profissionais que fazem possíveis os ensaios e mesmo gravações dos artistas. No princípio da pandemia, Corrêa alega que houve grande dificuldade para lidar com a intrusa e inesperada realidade: “A pandemia apareceu no pior momento possível para mim, menos de dois meses antes tive uma perda na família e uma no ciclo de amigos, a situação ainda era de tentar retomar um equilíbrio e uma rotina. Havia ainda muito equipamento em manutenção, boa parte deles fora da cidade, e a retirada de metade acabou ocorrendo uma semana antes do lockdown, logo, acabei nem utilizando e ainda gastei uma quantia que mais adiante fez falta. A outra metade foi ocorrendo aos poucos, com muita demora dos correios. Todos os serviços do estúdio foram cancelados por uns dois meses, o pânico era grande”. De acordo com o produtor, por volta de maio, a procura pelo serviço de gravação e produção musical assumiu um ritmo próximo daquele anterior à pandemia. “Tomando os procedimentos de segurança seguimos com sessões de um a dois integrantes por vez”, revela. Porém, os ensaios em grupo seguiram parados até julho.

Corrêa fala em um retorno a uma normalidade pós-pandemia, onde aparatos de segurança se tornam comuns dentre os músicos presentes no estúdio: “as máscaras e o álcool gel ainda fazem parte da rotina do estúdio, com cuidado especial para os microfones”. No dia a dia do estúdio, que retoma as atividades aos poucos, a procura maior, segundo o profissional, é de artistas de rock e metal, seguidos por reggae e gospel.

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                                                                                            By Michel Côrrea

Em relação ao futuro próximo, o produtor acredita que as atividades culturais, sobretudo no verão 2021, devem retornar, mas com ressalvas: “mesmo que retornem os eventos no verão acredito que o público ainda estará receoso quanto à segurança”. Para ele, o cenário atual vai modificar a própria interação entre público e artista bem como as formas de comunicação em geral. “Esse ano, e em especial, a pandemia, nos mostraram que o streaming, as aulas online e as lives certamente vieram para ficar de vez em nosso dia a dia. Não acredito que tomarão o lugar do modo clássico de interação artista/público, mas assumirão um papel grande e tão importante quanto”. Por fim, Corrêa estima que, por mais que novas formas de apresentação à distância via internet devem permanecer, o contato direto do público ainda tem um valor inestimável para o artista local. “Eu espero que essa transição dure o tempo que for preciso, mas que em seguida as pessoas sintam falta de contato, de ter a experiência de estar junto com outras assistindo seu artista, indo ao cinema, teatro, interagindo. Isso é importante demais para quem está em cima do palco, e provavelmente projetos de incentivo virão (deveriam)”, conclui.