Jornal Rio grande

Cassino, 131 anos

  • Redação JRG
  • 26/01/21 as 10:56

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Fotos: Arquivo JRG

Há 131 anos o trem saía para a primeira viagem regular entre a cidade e o Cassino, na então chamada Praia da Mangueira. A linha férrea, idealizada em 1885 pela Companhia Carris Urbanos do Rio Grande e concretizada com a criação da Companhia de Bonds Suburbanos da Mangueira, em 1888, deu início ao primeiro balneário organizado do Brasil. Esse pioneirismo era destacado pelo saudoso jornalista Daoiz de la Rocha, profundo conhecedor da história do Município. Para isso, argumentava que Copacabana, no Rio de Janeiro, surgiu dois anos após.

No dia 26 de janeiro de 1890 os trens partiram para a praia nos horários das 6h30min, 12h30min e 16h30min, ao preço de 200 réis, do Parque à Vieira; 400 réis do Parque ao Senandes e 600 réis do Parque à Costa. Havia paradas nas localidades da Junção, Barnabé, Garcia Vieira, Bernardo, Senandes, Bolaxa, Cassino e Costa.    

O jornal “Diário do Rio Grande”, na edição de 28 de janeiro de 1890, deu destaque para a inauguração do balneário com a seguinte notícia: “Na viagem da tarde, principalmente, foi numerosa a afluência de passageiros e mais numerosa seria se houvesse meios de transporte. A Companhia dispõe, por enquanto, apenas dois carros; conta, porém, no próximo domingo meter mais um em serviço. Ontem, no trem da manhã, já algumas pessoas foram à Costa tomar banho e voltaram à cidade. Só o sr. José Gonçalves Mostardeiro tomou quatro, segundo nos consta”.  

Após a inauguração da linha férrea, se pensou em atrair turistas de Pelotas para o balneário. A primeira viagem de trem para o Cassino aconteceu dia 12 de abril, já no outono, e se esperava bem mais pelotenses, conforme observou o “Diário do Rio Grande”: a previsão de centenas de pessoas foi reduzida a 15 e, assim mesmo, três passageiros, por engano, acreditaram que o trem viria para Rio Grande.

O balneário foi pioneiro também, na primeira estrada asfaltada doo Rio Grande do Sul, construída na década de 1950 e que hoje está duplicada. Com um número expressivo de moradores fixos (aproximadamente 40 mil pessoas) na temporada a população salta para cerca de 70 mil pessoas, sendo que a praia, em dias de muito calor, chega a receber mais de 150 mil banhistas. Para isso, o balneário possui uma infraestrutura de serviços bastante qualificada, enquanto a noite cassinense costuma ser a mais badalada da região, em épocas fora da pandemia da Coronavírus, com restaurantes, casas noturnas  várias atrações artísticas e culturais.

 

O Trem da praia, por Daoiz de la Rocha

Se é verdade incontestável que Rio Grande surgiu do soldado, mandado guarnecer o “presídio” implantado pelo brigadeiro Silva Paes, pode-se dizer, com a mesma convicção, que o Cassino é produto do trem, posto a circular entre a cidade e um ponto da praia, distante cerca de sete quilômetros a Barra, graças à iniciativa de um grupo de dinâmicos cidadãos, que aqui viveram no século passado.  

Praias, o Brasil sempre teve inúmeras no seu imenso litoral de 9.200 km. Aproveitá-las, porém, como estações balneares, era cometimento raro até o fim do século XIX. E isto porque seria preciso, em primeiro lugar, conscientizar as populações sobre as excelências de banho de mar, da vida ao ar livre, numa época em que os costumes qualificavam de nudez qualquer redução no número de peças de roupa, geralmente usadas, e o medo das doenças fazia com que todos procurassem no agasalho a primeira medida para preveni-las. Em segundo lugar porque era preciso ter coragem para apostar no êxito dessa conscientização, investindo fortemente no acesso e na infraestrutura de um novo núcleo urbano.    

No Rio Grande do final do século passado o ambiente era de euforia. A cidade crescia, o Município produzia e havia na comunidade um grupo de cidadãos dinâmicos, brasileiros e estrangeiros nela integrados, que já alcançara, pelo menos, três grandes conquistas: a Companhia Hidráulica Rio-Grandense, para captar e distribuir a água encanada em todas as economias; o gasômetro, que levava às residências o gás de iluminação, e a ferrovia ligando o porto marítimo à região produtora de Bagé. O momento, portanto, era propício para mais alguns passos e, embora muito largo para a época, não faltaram os que se animassem a cogitar de uma estação balnear. Para isto era preciso dar acesso fácil e nenhuma outra cidade da Província de São Pedro estava em melhores condições para realiza-lo, dada a curta distância entre o centro urbano e a costa do mar. Quanto ao tipo de transporte, só poderia ser o ferroviário.  

Com o trem, que tantos benefícios já trazia à Província, pela facilitação das comunicações entre a fronteira e o porto marítimo, seria possível chegar à praia e retornar à cidade em pouco tempo.

Os idealizadores da estação balnear começaram a batalhar em 1885, através da Companhia Carris Urbanos que tinha a seu encargo o transporte coletivo em veículos sobre trilhos, puxados por muares. Tentaram a concessão e a conseguiram; encontraram as primeiras pedras no caminho porque passariam do bonde de tração animal para trem de ferro, que a Southern Brazilian Rio Grande do Sul Railway utilizava e sobre o que pretendia ter exclusividade. Mas não esmoreceram, fundaram a subsidiária Companhia de Bonds Suburbanos da Mangueira e levaram o empreendimento adiante, dando-lhe definitivo impulso em 26 de janeiro de 1890.    

Com a facilidade do acesso a estação balnear se desenvolveu e durante muitos anos teve exclusividade no Sul do país. Hoje já não é única, sequer a primeira quanto ao porte alcançado, porque o Litoral Norte beneficiou-se dos bafejos oficiais, correu no seu encalço e a ultrapassou. Mas é pioneira e, além disso, centenária.

Texto extraído do jornal Rio Grande, edição de janeiro de 1990, alusiva ao centenário do Cassino