Jornal Rio grande

Aniversário: historiador Luiz Henrique Torres fala sobre o Cassino

  • Assessoria PMRG
  • 26/01/21 as 18:33

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Foto: Museu da Cidade do Rio Grande

O prefeito Fábio Branco e o historiador e professor da FURG, Luiz Henrique Torres comentaram sobre a importância histórica do Balneário Cassino para toda a região Sul, na data em que se comemoram 131 anos do maior balneário do mundo. Para o prefeito, “o Cassino é nosso cartão postal, reconhecido mundialmente e devemos valoriza-lo”.

Para o chefe do Executivo, é preciso usar o potencial do Cassino para o desenvolvimento, seja ele econômico, por meio do turismo, ou social, melhorando a vida das pessoas que vivem no local ou vem veranear. “É o maior bairro da cidade de Rio Grande e temos que aproveita-lo nos 365 dias do ano, pois é um vetor para o desenvolvimento da cidade do Rio Grande”, resumiu o prefeito.

O professor e historiador Luiz Henrique Torres, 58 anos, titular em História na FURG, onde atua desde 1991, é natural de Santa Cruz do Sul, mas reside em Rio Grande desde 1991. Na entrevista abaixo, ele faz um resgate histórico do Balneário Cassino, desde a fundação, há 131 anos comemorados nesta data. O professor traz algumas curiosidades e mostra a importância do balneário para a região e, principalmente, para o município do Rio Grande.

Quando se inicia a história do Cassino?

O Balneário Cassino recua a um projeto de empresários da cidade do Rio Grande que administravam a linha de bondes urbanos e efetivaram a construção de uma linha de trem ligando a cidade do Rio Grande (Estação no atual Parque do Trabalhador) até a então chamada, Costa da Mangueira, atual balneário Cassino. O projeto teve início em 1885, a construção da estrada de ferro iniciou a partir de 1889 e a inauguração com a primeira viagem de um trem levando veranistas em 26 de janeiro de 1890. Portanto, hoje, há 131 anos no passado!

De onde vem o nome do Cassino?

Inicialmente, a praia tinha a denominação principal de Vila Sequeira, sendo, popularmente e com grande apoio da imprensa, chamada de Balneário ou Praia do Cassino devido ao Hotel “Casino” (com um “s”) em cujas imediações ficava a Estação do Trem. Na década de 1920, basicamente, o nome Cassino já está amplamente disseminado. Portanto, o Hotel Casino e suas imediações é o epicentro das ações ocorridas nas primeiras décadas de vida do Balneário.

Quais interesses motivaram a planificação do Balneário?

Este é o primeiro balneário brasileiro que foi planificado: ele primeiro nasceu nas plantas de engenheiros/técnicos e depois foi efetivado. O motivo de sua construção era atrair as elites da metade Sul e de Porto Alegre para usufruírem dos banhos de mar que eram considerados um remédio para diferentes males do corpo. Esta era a leitura do saber médico do final do século XIX e primórdios do XX.

Qual a influência da ligação Rio Grande-Cassino, via férrea para o surgimento de outras localidades?

A ligação ferroviária entre Rio Grande e o Cassino foi fator de motivação e denominação para o surgimento de diversas localidades como o Senandes e Bolaxa, ou pontos de referência como a Junção.

Qual papel o Cassino tem na Segunda Guerra Mundial?

Frente a um possível ataque/desembarque a partir de submarinos nazistas, o Cassino foi ocupado por forças do Exército que fazia a vigilância do litoral. Havia a preocupação de um atentado que levasse a destruição da Refinaria Ipiranga. O acesso das pessoas ficou condicionado a vistos policiais e basicamente os moradores é que poderiam ter acesso ao local. O Hotel virou um alojamento para as tropas.

Que aspecto geográfico chama a atenção em relação à sede da SAC?

Em 1890, a beira-mar onde eram realizados os banhos e estava a estrutura para troca de roupas, ficava nas imediações da atual Sociedade Amigos do Cassino, evidenciando um considerável recuo das águas do Oceano Atlântico.

Houve algum momento de ruptura administrativa do Cassino com Rio Grande?

Pelas leituras que fiz, ficaram apenas em ideias esparsas, mas, desconheço algum momento de maior tensão. É importante destacar que o Cassino é uma história ainda pouco estudada e de longa duração: 131 anos é muito mais do que o tempo de emancipação da maior parte das cidades brasileiras.

Na sua avaliação, qual a importância histórica, econômica e turística do Cassino para a região Sul e, especialmente, para o município do Rio Grande?

O Cassino tem um pioneirismo histórico no banho de mar planificado no Brasil. Ele antecede, em termos de organização, a famosa praia de Copacabana que começa a se esboçar em 1892. Isto legou um longo período de acompanhamento histórico das mudanças de paradigma ligados aos banhos de mar medicinal e do turismo marítimo voltados ao lazer. O Cassino passou por períodos de crescimento, hegemonia, estagnação, decadência e retomadas desenvolvimento. Está contextualizado, com especificidades locais, nos projetos junto ao litoral que acompanham a redescoberta do litoral brasileiro que se intensificou a partir das décadas de 1970. A supervalorização dos espaços praias na zona costeira do Brasil, em muitos casos, promoveu danos ambientais e ocupações irregulares das dunas costeiras ou ecossistemas como os manguezais.

O Cassino é uma construção histórica que se projetou na esfera regional  como um sinônimo de banho de mar e veraneio. Economicamente, é um fator de atração para o empreendedorismo local que recebe uma grande frequência de veranistas ou visitantes diários que utilizam a sua prestação de serviço. Na década de 1950 se buscou qualifica-lo para um turismo mais agregador de renda e gerador de empregos, com a construção de loteamentos com infraestrutura avançada. Porém, as crises econômicas locais e nacionais sempre foram uma dificuldade para redescobertas e planificações mais avançadas e geradoras de renda. A proximidade da cidade também acaba trazendo um perfil misto de turismo e bairro moradia. Cenários complexos que exigem muito planejamento e racionalização na aplicação de recursos para garantir a sustentabilidade urbana e ambiental.

 

Luiz Henrique Torres é historiador e escreve para o Rio Grande semanalmente. Neste domingo, foi publicado um texto seu sobre o Cassino.