Jornal Rio grande

Jockey Club: a memória preservada

  • Ique de la Rocha
  • 01/02/21 as 9:35

Fevereiro sem as festividades religiosas e populares

Se não fosse a pandemia, neste momento Rio Grande estaria vivendo o seu melhor momento. Acontece que nesta época do ano atingimos o auge da temporada de veraneio e também temos grandes atrativos no município.

Tudo começa na cidade, dia 1º, com a abertura da safra de camarão. É um momento de grande expectativa para os pescadores e quando a safra é boa, como promete agora, movimenta a nossa economia, a de São José do Norte e de outros municípios da Lagoa dos Patos, como Pelotas e São Lourenço do Sul.  

Na virada de 1º para 2 de fevereiro temos a tradicional e linda Festa de Iemanjá, a maior manifestação religiosa da região, que atrai cerca de 100 mil pessoas à praia do Cassino. Neste ano o evento será virtual, justamente para não incentivar aglomerações, mas muitas oferendas já estão sendo depositadas no monumento à Santa e já foram avistadas, na margem da rodovia para o Cassino, pagadores de promessa indo a pé para a praia.   

Um dos pontos altos do verão é uma festividade de São José do Norte: a Festa e Procissão Marítima de Nossa Senhora dos Navegantes, um belo espetáculo que une religiosos das duas cidades. No lado de cá, milhares de pessoas costumam assistir a procissão, que vem até as proximidades do Rio Grande Yacht Club e retorna para a vizinha cidade. Há muitos anos, temos recebido excursões de Santa Catarina exclusivamente para assistir o evento que, neste ano, não acontecerá.  A programação limita-se à celebração de missas, em vários horários, na Igreja Matriz de São José.

Ainda tínhamos a realização do carnaval que, no Cassino, a cada ano cresce mais e se tornou uma referência na região. Fevereiro ia “bombar”, mas a prioridade do momento é proteger vidas. Devido a Covid-19 nosso verão acontece de forma bem diferente do que gostaríamos mas, se Deus quiser, ano que vem a vida estará de volta ao normal.

Memória preservada

No mês de fevereiro Rio Grande também atraía turfistas de todo o Rio Grande do Sul com o GP Cidade do Rio Grande. Só os mais antigos tiveram o privilégio de vivenciar essa grande prova do turfe gaúcho, que também acontecia em fevereiro. “O Praça Rio Grande Shopping Center e o Jockey Club”, foi um livro lançado na inauguração do empreendimento e, na ocasião, escrevi o artigo abaixo com o título “Memória preservada”:

“Sempre na virada de janeiro para fevereiro, no auge da temporada de veraneio, acontecem as tradicionais festas de Iemanjá, no Cassino, e a procissão marítima de Nossa Senhora dos Navegantes, que vem de São José do Norte até Rio Grande. São dois eventos belíssimos, que atraem milhares de pessoas e também muitos turistas. É quando me vem no pensamento, movido pela saudade, o Jockey Club, que fechou suas portas em 1998, e justamente em fevereiro promovia sua maior prova: o GP Cidade do Rio Grande. Uma verdadeira festa, em data próxima a Iemanjá e Navegantes.

Ir ao Prado também me remetia ao passado. Quando pequeno, era costume de meus pais levarem a família para passear e, volta e meia, aos domingos, uma das passagens era o Hipódromo da Vila São Miguel. Lembro do grande e agradável estacionamento, embaixo dos eucaliptos, onde os carros se posicionavam em fila dupla dupla ou tripla. Eu e meus seis irmãos gostávamos de lá, não só pelas corridas de cavalo, mas porque tinha espaço para brincar e vendedores de guloseimas por todo o lado. Ninguém apostava, nem o meu pai, mas a gente brincava de apostar. No início do páreo cada um escolhia o número de um animal, de forma aleatória. Lembro que várias vezes acertei o ganhador “no chute”.

Depois de crescido e de me tornar pai, mantive um vínculo distante com o Jockey Club, mas nunca o esqueci. Essa distância deve-se aos conselhos de meus pais e de um tio que estimava muito, que diziam ser o jogo o pior de todos os vícios, onde muitos apostadores perdiam tudo, até a vergonha na cara. Depois tive uma experiência em jogo de cartas entre amigos, a dinheiro. As apostas eram inocentes, proporcionais às nossas mesadas, mas concluí que quanto mais se ganha, mais se quer e quando se perde a gente tenta recuperar o prejuízo e continua perdendo. Por isso, para não me viciar, passei a ir no Prado somente no GP Cidade do Rio Grande. Nesses dias lá estava eu como apreciador do esporte. Só apostava na pule, que era a aposta mais simples, e sem entender nada de cavalo. Minhas apostas eram no chutômetro, que nem quando criança. Acho até que nunca ganhei nada, mas não me importava.

O Jockey Club para mim era divertimento. Gostava de ver os páreos, a beleza e elegância dos cavalos correndo. Assistia um pouco dos leilões, ia nas cocheiras ver os animais, procurava me inteirar dos favoritos e fazia alguma aposta pequena. Nos GP avistava muitas excursões, especialmente de Pelotas e Bagé, Porto Alegre, Santa Maria e Cachoeira do Sul. Os intervalos entre os páreos costumavam ser longos e dava para fazer todas essas voltas e ainda comer um churrasquinho, apostar na roleta e outras jogatinas que nem as de parque de diversões. A copa, então, era um dos meus locais preferidos.

Nos dias de GP tinha páreos na manhã e tarde. O GP Cidade era o penúltimo e acontecia quase às 18 horas. Muita gente ia embora depois dele. Eu ainda ficava mais um pouco, já pensando em ir, logo após, no bar do Jací, que ficava em frente, para tomar um aperitivo, me deliciar com o gostoso e famoso pastel de camarão (fevereiro é a época da safra) e jogar conversa fora. Quando me dava por conta, já era noite e eu ia embora satisfeito por ter desfrutado de um dia que, de tão bom, dava a impressão de ter passado rápido.  

O Hipódromo da Vila São Miguel foi e até hoje continua sendo uma referência daquela região da cidade. É uma lástima um esporte tão tradicional desaparecer de uma hora para outra, enquanto cidades como Porto Alegre, Pelotas, Cachoeira do Sul e Santa Maria ainda o mantém. Mas também é motivo de satisfação ver que os empreendedores do Praça Rio Grande Shopping tiveram a sensibilidade de preservar o local que tantas alegrias proporcionou aos riograndinos e destiná-lo a uma atividade tão importante e imprescindível que é a cultura.

Sem dúvida, preservar as instalações de nosso antigo Jockey Club é preservar parte da memória da cidade do Rio Grande”.

Nota do colunista: Este artigo foi escrito em 2014, quando os Jockey Club de Porto Alegre, Pelotas, Cachoeira do Sul e Santa Maria ainda estavam em atividade. De lá para cá o turfe caiu mais ainda no Rio Grande do Sul. Ficou a saudade e as boas recordações.

n/d